Empresas de infraestrutura costumam parecer destinos profissionais muito estáveis. A economia pode desacelerar, mas a eletricidade continua sendo necessária. Os ativos são enormes e o serviço é essencial para a sociedade.
Quando os comunicados recentes do grupo Chubu Electric são colocados em ordem, porém, aparece outra história. Entre 2023 e 2026 houve casos envolvendo concorrência, acesso indevido a dados de clientes, falsificação de documentos, falhas de procedimentos administrativos, problemas de contratação e reporte na usina nuclear de Hamaoka, uma avaliação sísmica inadequada e um erro no cálculo de custos de tarifas.
É fácil concluir: “alguém não prestou atenção”. A pergunta melhor é: por que problemas de naturezas diferentes continuam aparecendo em partes diferentes de um sistema tão grande?
Os próprios relatórios da empresa apontam para uma hipótese forte: complexidade e volume de trabalho podem crescer mais rápido do que os mecanismos usados para administrá-los.
1. “Todo ano acontece alguma coisa” é quase verdade, mas os casos não têm o mesmo peso
Em março de 2023, a autoridade japonesa de concorrência emitiu ordens e multas envolvendo Chubu Electric, Chubu Electric Power Miraiz e outras empresas por condutas anticompetitivas no varejo de eletricidade. No mesmo ano, a Miraiz revelou consulta e uso indevidos de informações de clientes de outros varejistas.
Em 2024, a Chubu Electric informou que um funcionário havia falsificado um contrato de arrendamento de terreno necessário para a certificação de uma usina hidrelétrica.
Em 2025, a Chubu Electric Power Grid divulgou problemas administrativos na retirada de ninhos de corvos, incluindo captura sem autorização, quantidades acima do permitido e relatórios incompatíveis com os números reais. Na usina nuclear de Hamaoka surgiu ainda um caso de governança mais grave: certas obras de segurança ficaram sem acerto financeiro com fornecedores por longo período e executivos da área nuclear deixaram de informar o conselho e outros órgãos durante muito tempo.
Em janeiro de 2026, a empresa divulgou um caso inadequado na seleção de ondas sísmicas representativas para a revisão regulatória de Hamaoka. Em 11 de setembro recebeu o relatório de especialistas externos; em 14 de setembro, a versão pública com dados pessoais protegidos ainda aguardava divulgação.
Em 10 de setembro houve ainda um erro separado no cálculo de tarifa: 2,7 bilhões de ienes foram contabilizados a mais em custos, com cobrança cerca de 10 ienes por mês acima do correto para um domicílio-modelo e reembolso total estimado em cerca de 1,2 bilhão de ienes.
A recorrência é real. Mas cartel, falsificação, licença administrativa, compras, regulação nuclear e erro de cálculo não são a mesma coisa.
O padrão importa. As diferenças também.
2. A evidência mais forte é a própria empresa admitir deficiência de gestão
No relatório de 31 de março de 2026 sobre os procedimentos de compras em Hamaoka, a Chubu Electric apontou deficiência na função de controle de compras, fragilidade da gestão orçamentária na área nuclear, gestão inadequada de projetos grandes e importantes e comunicação insuficiente com fornecedores.
Revisão regulatória, projeto e obra avançavam em paralelo, criando muitas mudanças de especificação, mas faltava um mecanismo transversal robusto para controlar cronograma, orçamento e compras em conjunto. Havia forte pressão para cumprir prazos e uma estrutura insuficiente para compartilhar e resolver problemas.
Uma das respostas foi criar uma função específica de gestão para grandes projetos.
Em português simples:
“O projeto já era gigante; o sistema para gerenciar gigantes ainda não era. Agora será reforçado.”
Mais assinaturas não significam mais controle. Se todos estão sobrecarregados e ninguém enxerga o todo, cresce o número de carimbos, não a visão.
3. O erro tarifário de 2026 torna o problema de capacidade ainda mais explícito
Na correção de setembro, a empresa citou conhecimento e experiência insuficientes entre responsáveis pelos cálculos e revisores, além de uma função de revisão que não funcionou adequadamente.
Entre as medidas corretivas está garantir qualidade e quantidade de pessoal, inclusive com apoio de pessoas experientes.
Isso é mais do que “tomem cuidado”. É desenho de equipe e de processo.
Quando um cálculo de grande escala afeta muitos contratos, é preciso definir quantas revisões independentes existem, qual conhecimento regulatório é necessário e como anomalias sobem na hierarquia.
Se a última barreira é “uma pessoa cansada deve perceber”, a barreira é feita de esperança.
4. Contabilidade e RH também estão sendo redesenhados
Em 2025, a Chubu Electric criou uma unidade para apoiar empresas do grupo em contabilidade, recursos humanos, digitalização e criação de empresas.
Seu próprio material de recrutamento reconhece que algumas empresas do grupo tinham tarefas de contabilidade e RH muito dependentes de indivíduos, pouca acumulação e compartilhamento de conhecimento, envelhecimento da força de trabalho e problemas de sucessão. A empresa também se descreve como relativamente tardia na adoção de serviços compartilhados para RH e contabilidade.
Diversificação não cria apenas receita. Cria contabilidade, folha, contratos, sistemas, auditoria e controles.
Novo negócio: “Trouxe crescimento!”
Back office: “Ótimo. Onde colocamos os outros doze processos?”
5. Uma média próxima de 30 horas extras pode esconder uma cauda enorme
Um site japonês de avaliações de empregados agrega relatos em cerca de 29,5 horas mensais para a Chubu Electric e 29,1 para a Power Grid.
Não são dados oficiais de ponto e não devem ser tratados como médias exatas da empresa.
O valor está na dispersão. Um relato de 2025 afirmou que gestores de alguns departamentos passavam de 100 horas mensais; outro relato administrativo na Power Grid descreveu o oposto, com gestores saindo antes e jovens ficando até mais tarde.
Isso não prova uma regra geral. Sugere que a carga pode variar muito conforme departamento, projeto e função.
A média esconde a cauda. Misturar montanha e vale numa média não elimina a montanha.
6. A linha de transmissão na montanha é real, mas existem vários tipos de trabalho pesado
A Power Grid mostra oficialmente inspeções que exigem subir encostas íngremes e atravessar vegetação para chegar a instalações remotas.
Transmissão inclui levantamentos, fundações, montagem de torres, lançamento de cabos, manutenção e controle de vegetação. Drones também são usados para reduzir inspeções perigosas em altura.
A distribuição pode exigir restauração de emergência a qualquer hora. A operação da rede monitora e controla o sistema 24 horas por dia.
Montanha e altura pesam no corpo. Emergências são imprevisíveis. Turnos afetam a rotina. Operação de rede exige decisões de alta responsabilidade. Gestão de obras junta cronograma, segurança, orçamento e empreiteiros.
Não existe apenas um tipo de “difícil”. São tipos diferentes de dano.
7. Mão de obra especializada não escala da noite para o dia
Nem toda tarefa de transmissão ou distribuição exige legalmente licença de eletricista. Mas muitas combinam certificações, treinamento de segurança, conhecimento de alta tensão, experiência em campo e coordenação de equipe.
Contratar não é o mesmo que ganhar capacidade instantânea.
Em janeiro de 2026, a Power Grid iniciou na Índia um teste de formação de eletricistas, citando redução e envelhecimento da população japonesa, envelhecimento da infraestrutura, expansão renovável e necessidade urgente de trabalhadores de instalações elétricas.
A empresa também afirmou que o fornecimento estável depende de manter capacidade de construção e cadeia de suprimentos, além dos investimentos.
Dá para contratar alguém este mês. Não dá para instalar dez anos de experiência até sexta-feira. E tufões não consultam o plano de recrutamento.
8. A terceirização já é ampla; ela não apaga o gargalo
A Power Grid lista numerosas empresas parceiras em levantamento, fundações, montagem de torres, lançamento de linhas, manutenção e gestão de obras.
O campo já funciona por meio de um grande ecossistema especializado.
Mas terceirizar transforma o trabalho em vez de fazê-lo sumir.
obra → especificação → orçamento → compra → cronograma → coordenação de desligamentos → segurança → alteração contratual → inspeção → acerto financeiro
Se as terceirizadas também têm falta de gente, o cronograma piora. Se cresce o número de pacotes terceirizados, cresce a necessidade de capacidade interna de compras e gestão.
Terceirização não é magia de teletransporte. Bem feita, amplia capacidade. Mal feita, cria outro gargalo.
9. Empresa popular e falta de trabalhadores de infraestrutura podem coexistir
No ranking Mynavi/Nikkei para formandos de 2027, a Chubu Electric ficou em primeiro lugar na categoria eletricidade, gás e energia; para 2026, ficou em segundo.
Ao mesmo tempo, o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão aponta forte escassez em ocupações de infraestrutura. Em 2024, a relação vagas/candidatos foi 1,14 no conjunto, 2,18 em transporte e operação de máquinas e 5,12 em construção e mineração.
Não há contradição. Popularidade da empresa e popularidade da ocupação são variáveis diferentes.
“Quero trabalhar na Chubu Electric” não é a mesma frase que “quero passar anos em montanhas, altura, alta tensão, restauração noturna e turnos”.
No plano regular de 2026 das três empresas, havia 390 vagas técnicas e 105 administrativas; com recrutamento de profissionais experientes, o total previsto era 715.
A marca pode atrair. Lama continua sendo lama.
10. Por que “os jovens de hoje” é uma análise ruim de causa raiz
A autoridade britânica de segurança trata desempenho humano junto com carga de trabalho, pressão de tempo, pessoal, procedimentos, equipamentos, organização e comunicação. Sobrecarga pode reduzir desempenho e elevar erros.
Ela também alerta que focar só no comportamento do operador e pedir “mais cuidado” pode ignorar condições organizacionais latentes.
Isso não elimina responsabilidade pessoal. Má conduta deliberada, negligência e incompetência existem.
Mas se trocar a pessoa não muda o padrão do posto, examine o posto e o sistema.
Quantos casos um gestor revisa? Exceções são separadas? É seguro reportar más notícias? O que vence quando prazo e precisão entram em conflito? A capacidade interna de gestão cresceu junto com a terceirização?
Essas perguntas explicam mais do que culpar uma geração.
11. Análise empresarial fica divertida quando você desenha o fluxo do trabalho
Diante de falhas repetidas, desenhe:
demanda → campo → parceiros → compras → gestão → aprovação → reporte executivo
Depois veja onde volume e complexidade cresceram e se pessoas, autoridade, informação e tempo cresceram na mesma velocidade.
Por fim, leia as medidas corretivas. Se forem apenas “treinamento”, “conscientização” e “dupla checagem”, a empresa pode continuar tomando segurança emprestada da atenção humana.
Se redesenha fluxo, separa exceções, esclarece autoridade, adiciona capacidade especializada, centraliza informação, automatiza, reduz amplitude de supervisão e facilita escalada, está mudando o sistema.
Uma pergunta melhor que “os funcionários são bons?” pode ser:
“Quantas coisas ao mesmo tempo esses bons funcionários precisam carregar?”
12. Conclusão: empresa estável não significa trabalho tranquilo
Os documentos públicos não provam que todas as ocorrências tenham sido diretamente causadas por horas extras ou falta de pessoal.
Mas os próprios documentos da Chubu Electric voltam repetidamente a sistema de gestão, orçamento, controle de compras, qualidade e quantidade de pessoal e coordenação transversal.
Infraestrutura crítica precisa de habilidade especializada e resposta emergencial. Terceirização adiciona contratos e coordenação. Diversificação expande o back office. Grandes projetos regulados juntam engenharia, cronograma, orçamento, contratos e governança.
A versão curta é:
A força de uma empresa de infraestrutura não está em pessoas que nunca erram. Está em desenhar o trabalho para que o sistema não desmorone quando as pessoas estão ocupadas.
A rede elétrica tem limite de carga. O fluxo de trabalho também.

