O ambiente de trabalho em que quem assume a responsabilidade quebra primeiro
Quando afastamentos e pedidos de demissão se repetem, olhe para o fluxo da carga, não para cada pessoa
Quando alguém se afasta ou pede demissão, as empresas costumam tratar cada caso como uma história separada.
A saúde da pessoa. A situação da família. Os objetivos de carreira. A adequação à função. O relacionamento com os colegas. Uma mudança de cidade.
É claro que ninguém sai por um motivo só.
Mas, se pessoas diferentes vão se afastando ou saindo uma depois da outra, explicar caso por caso não basta.
O que precisa ser observado é isto:
Não quem foi o mais fraco, mas de onde para onde a carga estava fluindo
"Assumir é ficar seguro" não se sustenta
Dizem que, no trabalho, quem assume responsabilidades é valorizado.
Ajudar quem está com dificuldade. Pegar tarefas vagas que ninguém quer. Apoiar os mais novos. Fazer a ponte entre o chefe e a equipe. Resgatar um projeto que está prestes a estourar o prazo.
Cada uma dessas atitudes tem valor.
Só que, num ambiente em que o trabalho que a pessoa já tinha não diminui, a autoridade dela não aumenta e a remuneração continua a mesma, a boa vontade e a competência viram uma máquina de acumular carga.
O processo é simples:
- Ela resolve um problema uma vez
- Passam a pensar: "se pedir pra essa pessoa, a coisa anda"
- As próximas pendências sem dono também vão parar com ela
- Ela acaba absorvendo os erros e atrasos dos outros
- Fica nebuloso até onde vai a responsabilidade dela
- Se ela diz não, é rotulada como pouco colaborativa ou sem iniciativa
- Entra em sobrecarga crônica
- Sai de cena por afastamento ou demissão
Numa estrutura assim, assumir não é um caminho para a estabilidade.
Pode virar:
Uma forma de se prender a um papel do qual é difícil sair
Olhe para os recursos, não só para a quantidade de trabalho
Para entender a carga de trabalho, não basta contar tarefas ou horas extras.
A teoria Job Demands–Resources, conhecida como modelo JD-R (demandas e recursos do trabalho), separa o que o trabalho exige dos recursos que você tem para dar conta dessas exigências.
Entre as demandas do trabalho estão, por exemplo:
- Volume de trabalho
- Prazos
- Trabalho emocional (segurar as próprias emoções para lidar com os outros)
- Coordenação entre pessoas
- Papéis mal definidos
- Instruções contraditórias
- Responsabilidade
- O trabalho invadindo a vida em casa
Já entre os recursos do trabalho:
- Autonomia (espaço para decidir)
- Gente suficiente na equipe
- Apoio do chefe
- Papéis claros
- Reconhecimento justo
- As informações necessárias
- Oportunidades de aprender
- Tempo para se recuperar
- O direito de dizer não
Mesmo quando a demanda é alta, às vezes dá para aguentar se houver autoridade, apoio, tempo e recompensa.
Por outro lado, mesmo que a carga visível seja pequena, um ambiente como este esgota:
- Não importa o que você faça, o critério muda depois
- Você é obrigado a recolher os problemas dos outros
- Tem a responsabilidade, mas não o poder de decidir
- Não sabe quando vai acabar
- Se diz não, é julgado como pessoa
A questão não é só se você está ocupado.
É esta:
Você tem recursos para se contrapor à carga?
Afastamentos e demissões são um indicador tardio
O problema leva tempo para aparecer.
O que acontece primeiro costuma ser uma mudança pequena.
- A pessoa fala menos
- Para de fazer perguntas
- Para de sugerir melhorias
- Conversa menos com os colegas
- Faz só o mínimo
- Falta mais
- Fica emocionalmente apagada
- Se culpa cada vez mais
- Continua pensando no trabalho mesmo em casa
- Surgem sintomas físicos
Mesmo assim, o trabalho vai saindo.
Por isso a gestão conclui: "não há problema".
Na verdade, a carga vinha se acumulando por dentro até a pessoa quebrar.
Um afastamento ou uma demissão não é uma anomalia repentina.
É:
Um indicador tardio: a carga que passou despercebida por tanto tempo, enfim virando número
Quando uma pessoa sai, a carga passa para a próxima
Se alguém sai sem que a origem da carga seja corrigida, o trabalho não desaparece.
Ele passa para quem ficou.
Os mais visados costumam ser:
- Pessoas responsáveis
- Pessoas que respondem rápido
- Pessoas que explicam bem
- Pessoas que enxergam como o problema é estruturado
- Pessoas que param para pensar antes de dizer não
- Pessoas que não conseguem deixar quem está ao redor na mão
Sobre elas, diz-se que "o trabalho se acumula porque são muito capazes".
Mas o que pode estar acontecendo é só isto:
O senso de responsabilidade delas está tapando o que a organização nunca desenhou
Enquanto uma pessoa serve de amortecedor, a falha de gestão não aparece.
Quando ela sai, parece que surgiu um problema novo na organização.
Não surgiu.
O problema já estava lá. Só ficou visível.
"Se eu não ajudar, outra pessoa vai pagar o preço" é uma pergunta perigosa
Quanto mais alguém enxerga a estrutura, mais provável é que pense assim:
Se eu sair, será que outra pessoa vai ser sacrificada?
Isso vem da gentileza, mas também é perigoso.
Se essa pessoa não tem autoridade de gestão, o que ela pode fazer é bem limitado:
- Não pode trocar um gestor problemático
- Não pode aumentar o quadro de pessoal
- Não pode decidir como o trabalho é dividido
- Não pode mudar o sistema de avaliação
- Não pode obrigar a adotar medidas para evitar que se repita
Mesmo que alguém sem autoridade fique, não consegue corrigir a causa raiz.
Só consegue absorver a carga e adiar o momento em que o problema vem à tona.
Ou seja, pode virar uma situação em que:
Você parece estar salvando a organização, mas na verdade está deixando as falhas dela mais difíceis de ver
É possível que alguém se machuque depois.
Mas a responsabilidade por isso é de quem conhecia o problema, tinha autoridade para corrigi-lo e o deixou de lado.
Ninguém tem a obrigação de sacrificar a própria saúde para evitar isso.
Seis coisas para checar antes de aceitar um trabalho
Na hora de decidir se aceita algo, confira as condições antes de deixar o senso de responsabilidade falar mais alto.
1. Escopo
Onde começa e onde termina a sua parte?
2. Condição de término
O que conta como concluído?
3. Autoridade
Você pode decidir o método, as prioridades e a quem pedir ajuda?
4. Trabalho atual
O que sai do seu prato para dar lugar ao trabalho extra?
5. Retorno
O que volta para você: reconhecimento, remuneração, experiência, tempo livre ou algo concreto para mostrar?
6. Condição de saída
Se a situação piorar, dá para reduzir o escopo ou encerrar?
Se isso tudo estiver vago, o que você está aceitando talvez não seja um trabalho, e sim uma dívida.
Conclusão
Num local de trabalho em que afastamentos e demissões acontecem aqui e ali, não basta analisar a personalidade de cada pessoa que saiu.
O que se deve olhar é:
- Em quem o trabalho vinha se acumulando
- Se autoridade e responsabilidade andavam juntas
- Se o trabalho de quem assumiu realmente diminuiu
- Se está concentrado no mesmo gestor ou no mesmo departamento
- Para quem foi a mesma carga depois que alguém saiu
É isso que importa.
Assumir nem sempre é algo bom.
Numa estrutura em que, quanto mais você assume, mais perto fica de um afastamento ou de uma demissão, proteger seus limites é gestão profissional de risco.
