O lugar vazio de uma “base segura”, as relações no trabalho e posições de sono que ajudam o corpo a se sentir seguro
“Uma característica em comum entre pessoas que vivem uma vida feliz é a qualidade de suas relações.”
Uma publicação sobre o Harvard Study of Adult Development ganhou atenção. O núcleo da mensagem está, em linhas gerais, correto: não apenas dinheiro ou status, mas também a qualidade das relações com pessoas em quem se pode confiar está associada à felicidade, à saúde e a como as pessoas chegam à velhice.
Porém, acréscimos comuns nas redes sociais, como “basta ter uma ou duas relações verdadeiras” ou “a pessoa mais forte é aquela que não depende de ninguém e consegue ficar plenamente satisfeita sozinha”, não são conclusões do estudo.
O ponto mais importante é não precisar processar absolutamente tudo sozinho, mas ter relações nas quais seja possível se apoiar com segurança quando necessário.
O estudo de Harvard não está dizendo “aumente sua rede de contatos”
O Harvard Study of Adult Development começou na década de 1930 como um acompanhamento de longo prazo de dois grupos de homens, totalizando 724 participantes. Questionários, exames de saúde e entrevistas foram repetidos ao longo do tempo para estudar saúde, trabalho, casamento, envelhecimento e outros aspectos da vida.
Entre as conclusões centrais enfatizadas repetidamente estão ideias como estas:
- Pessoas mais conectadas socialmente tendem a ser mais saudáveis e felizes.
- A qualidade das relações importa mais do que o número de conhecidos.
- Relações que transmitem segurança podem amortecer o estresse.
- Relações marcadas por muitos conflitos podem, em alguns casos, ser mais desgastantes do que simplesmente estar sozinho.
Ou seja, não é uma mensagem dizendo “dê-se bem com todo mundo”, “vá a todos os encontros da empresa” ou “faça cem amigos”.
O que importa é ter relações em que você possa procurar alguém quando estiver com problemas, mostrar-se fragilizado sem ser atacado e discordar sem sofrer desqualificação pessoal.
“A pessoa mais forte é a que se basta sozinha” é apenas meia verdade
Uma vida em que todo o controle do humor e do funcionamento cotidiano é entregue a outra pessoa é instável. Se toda a vida desmorona quando essa pessoa se afasta, a dependência está concentrada demais em uma única fonte de apoio.
Mas passar daí para “preciso me tornar alguém que não necessita de ninguém” é ir longe demais na direção oposta.
Há teorias segundo as quais a presença de pessoas confiáveis pode reduzir a carga necessária para vigiar ameaças e resolver problemas. Um mesmo problema pode parecer um pouco mais leve quando estamos com alguém de quem gostamos. Só ser ouvido pode ajudar a organizar o que acontece na cabeça. O toque ou a presença de alguém ao lado também pode aliviar a tensão corporal.
Isso não significa “sozinho eu não consigo fazer nada”.
A autorregulação que permite manter a própria vida sozinho e
a regulação compartilhada que ajuda a se recuperar com alguém de confiança são funções diferentes.
Ser forte não significa nunca depender de ninguém.
Você consegue se sustentar sozinho.
E também consegue se apoiar de forma adequada e recíproca em alguém de confiança.
Uma condição mais sólida pode incluir as duas coisas.
Por que é possível ser independente e ainda assim não se recuperar
Caminhar, fazer exercício, ir a águas termais, tomar banho quente, assistir a vídeos de natureza, jogar, criar, colocar sentimentos em palavras. Quem construiu várias formas de se recuperar por conta própria e ainda consegue continuar trabalhando ou procurando emprego já possui bastante autonomia.
Mesmo assim, a sensação de recuperação pode permanecer fraca.
Um dos motivos pode não ser a falta de métodos de recuperação, mas um nível de desgaste alto demais durante o dia.
Outro pode ser passar muito tempo funcionando apenas com autorregulação enquanto a via de regulação compartilhada permanece vazia.
Ser abraçado por alguém de quem você gosta, receber carinho, dormir ao lado dessa pessoa ou ser aceito sem precisar explicar tudo não pode ser substituído completamente por um banho ou uma caminhada.
Os métodos de recuperação individual não estão falhando. Eles cumprem outra função.
No trabalho, previsibilidade importa mais do que “ter amigos”
Quando se fala em relações no trabalho, a conversa costuma virar conselhos como “converse mais”, “faça amizade com colegas” ou “participe de eventos da empresa”.
Mas, em um ambiente de trabalho muito desgastante, o que realmente importa não é o número de amigos.
- Objetivos e prioridades são claros.
- Instruções e critérios de avaliação não mudam no meio do caminho.
- Está claro quem toma decisões e qual é o limite de cada responsabilidade.
- Perguntar para confirmar algo não provoca bronca, e uma decisão própria não é anulada depois por critérios inventados posteriormente.
- É possível apontar erros ou dúvidas sem sofrer ataques pessoais nem retaliação.
- Existe pelo menos um superior ou colega com quem seja possível conversar quando surgir um problema.
Quando essas condições existem, as pessoas conseguem usar seus recursos cognitivos no trabalho em si.
Por outro lado, quando as instruções se contradizem, a “resposta certa” muda depois dos fatos e é preciso prever constantemente raiva ou ataques pessoais, uma grande parte da capacidade mental é consumida por vigilância que não tem relação com a tarefa.
A OMS também inclui cargas de trabalho excessivas, comportamentos negativos, falta de apoio, falta de controle e gestão organizacional inadequada entre os riscos psicossociais do trabalho. As respostas recomendadas não se limitam a dizer que “a pessoa precisa ser mais positiva”; incluem mudanças organizacionais na carga de trabalho, nos horários, na comunicação e na atuação da gestão.
Por isso, avaliar o problema apenas como “você tem poucos amigos no trabalho” pode deixar de fora o ponto principal.
Talvez a dificuldade não seja a falta de amigos, mas a ausência de relações e de uma forma de funcionamento que permitam baixar a guarda.
O que você precisa não é ficar ainda mais forte
Dizer “seja mais independente” ou “não espere nada dos outros” a alguém que já aguenta tudo sozinho, pensa, cria estratégias de recuperação e continua trabalhando dificilmente vai melhorar sua recuperação.
As tarefas mais importantes podem ser estas duas:
- Ir para um trabalho em que não seja necessário manter uma postura defensiva todos os dias.
- Construir, na vida privada, uma relação em que seja possível relaxar com segurança.
Uma transferência ou mudança de emprego não é necessariamente uma fuga. Pode ser um ajuste do ambiente para proteger uma quantidade limitada de energia física e atenção, saindo de uma estrutura de desgaste que técnicas individuais não conseguem corrigir.
O mesmo vale para relacionamentos amorosos. Não basta simplesmente “ter um parceiro”.
Importam segurança, aceitação, contato físico, espaço para os desafios de cada um, responsabilidade mútua na vida cotidiana e capacidade de negociar desejos e necessidades por meio de palavras.
A resposta não é nem “deixar um príncipe encantado cuidar de tudo” nem “resolver absolutamente tudo sozinho, aconteça o que acontecer”.
Uma relação em que as duas pessoas conseguem se sustentar por conta própria e, quando estão cansadas, apoiar uma à outra pode se tornar uma base segura.
Existe uma posição para dormir que faça o corpo se sentir seguro?
Não existe uma posição universal comprovada que garanta que “o sistema nervoso se sinta seguro”. A pesquisa sobre posições de sono é mais clara principalmente em relação à carga sobre a coluna, as articulações e a respiração.
Ainda assim, algumas posições podem reduzir a carga física e facilitar a sensação de estar apoiado.
1. Posição fetal relaxada
Deite-se de lado e flexione levemente os joelhos. Pense em uma versão bem mais relaxada de ficar encolhido.
Uma configuração prática pode ser assim:
- Não puxe os joelhos com força até o peito.
- Coloque um travesseiro ou cobertor enrolado entre os joelhos.
- Abrace um travesseiro de corpo ou parte da roupa de cama à frente do peito.
- Coloque também uma almofada atrás das costas.
- Use um travesseiro com altura suficiente para que o pescoço não fique dobrado para o lado.
Dormir de lado com um travesseiro entre os joelhos pode ajudar a reduzir a torção da pelve e da coluna. Um travesseiro à frente, uma almofada atrás e a roupa de cama por cima também podem criar uma sensação de apoio pela frente e pelas costas, sem precisar manter vigilância sobre o que está atrás.
Mas ficar encolhido demais pode aumentar a rigidez das articulações e comprimir o peito a ponto de tornar a respiração mais superficial. A ideia básica é manter a postura relaxada.
2. De barriga para cima + travesseiro sob os joelhos
Se dormir de barriga para cima for confortável, coloque um travesseiro ou cobertor enrolado sob os joelhos.
Elevar um pouco os joelhos pode ajudar a relaxar a musculatura lombar e facilitar a manutenção da curvatura natural da região inferior das costas.
As mãos podem ficar sobre o abdômen ou o peito. Mais do que uma posição de “estar envolvido”, é uma postura de “rendição total”, deixando a superfície sustentar o peso do corpo.
Porém, pessoas que roncam, sentem falta de ar, têm pausas respiratórias ou acordam com frequência quando dormem de barriga para cima devem ter cuidado, pois a posição supina pode piorar a apneia do sono em algumas pessoas.
3. Postura da criança, semelhante a uma reverência no chão
A postura da criança, parecida com ajoelhar-se e inclinar-se para a frente, pode ser usada como posição calmante antes de dormir.
- Abra os joelhos apenas até onde for confortável.
- Coloque um travesseiro grosso sob o peito ou a testa.
- Não torça o pescoço nem prenda a respiração.
- Mantenha a postura por algumas dezenas de segundos ou poucos minutos.
Fechar a parte da frente do corpo, abaixar a cabeça e deixar o peso sobre o chão ou um travesseiro pode facilitar a sensação de que “o dia acabou”.
Não é, porém, uma boa posição para dormir a noite inteira. Pode sobrecarregar o pescoço, os joelhos e os tornozelos ou comprimir o tórax. É mais seguro usá-la antes de dormir e depois passar para uma posição lateral ou de barriga para cima.
Construindo uma “base segura” para o corpo
A roupa de cama não consegue reproduzir completamente a base segura que outra pessoa pode oferecer. Mesmo assim, é possível criar um ambiente que transmita ao corpo que ele já não precisa continuar em alerta.
Uma configuração prática seria:
Deite-se de lado com os joelhos levemente flexionados
- abrace um travesseiro de corpo à frente do peito
- coloque um travesseiro entre os joelhos
- ponha uma almofada atrás das costas
- cubra-se com a roupa de cama
Apoiar o corpo pela frente, por trás, por baixo e por cima, além de dar lugares definidos para braços e pernas descansarem, reduz um pouco os graus de liberdade e o trabalho muscular necessário apenas para manter a postura.
Se a pressão for desagradável, reduza-a. Se um peso moderado for calmante, outra opção é acrescentar camadas de roupa de cama apenas até um nível que você consiga afastar facilmente sozinho.
O importante não é se obrigar a adotar a suposta “posição correta” indicada por uma regra geral.
- A respiração está fácil?
- Pescoço, ombros, lombar ou joelhos doem?
- Está quente demais?
- Você acorda com dormência?
- A sensação de estar em alerta diminui, mesmo que um pouco?
Ajuste a configuração usando essas cinco perguntas.
Conclusão: querer se sentir seguro não significa falta de independência
Querer uma base segura não é o mesmo que ser incapaz de se sustentar sozinho.
Você pode administrar a vida diária sozinho, trabalhar, pensar e criar suas próprias estratégias de recuperação. Ainda assim, pode precisar de contato com alguém de quem gosta e de um ambiente de trabalho previsível e seguro.
Isso não é fraqueza. Faz parte do funcionamento humano normal.
Se houver um problema a resolver, talvez ele não seja “eu ainda não tenho capacidade suficiente para me sustentar sozinho”.
- Parar de ser continuamente desgastado pelo trabalho.
- Ter relações nas quais seja seguro mostrar fragilidade.
- Permitir que o corpo baixe a guarda, pelo menos à noite.
Em vez de ficar ainda mais resistente, aumente os lugares em que você não precisa se defender.
Para alguém cuja independência já é suficiente, o próximo passo não é treinar ainda mais para suportar a solidão, mas escolher ambientes mais seguros e formas de interdependência nas quais o apoio possa circular nos dois sentidos.
Referências
- Harvard Gazette: Good genes are nice, but joy is better
- Harvard Study of Adult Development: Grant and Glueck Study
- Social Baseline Theory: The Social Regulation of Risk and Effort
- WHO: Mental health at work
- Mayo Clinic: Sleeping positions that reduce back pain
- Cleveland Clinic: Child’s Pose in Yoga
- Sleep Foundation: Sleeping in the Fetal Position
