Quando o assunto é relacionamento no trabalho, a conversa costuma escorregar logo para coisas como:
- Seja alguém de quem as pessoas gostam
- Cuide para não ser mal visto
- Puxe papo
- Passe uma boa impressão
- Seja fofo e simpático
- Dê-se bem com todo mundo
- O trabalho é uma comunidade, então o que importa são as relações
Claro, o mínimo de educação e de simpatia é importante.
Não cumprimentar, não avisar o que precisa ser avisado, tratar os outros com grosseria.
Isso é problema, sem discussão.
Mas o trabalho, na sua essência, não é lugar de brincar de melhores amigos.
É uma comunidade em que as pessoas colaboram para trabalhar, gerar valor e receber o salário.
Ou seja, o que se precisa no trabalho não é
Virar amigo de todo mundo
e sim
Manter uma relação em que o trabalho flui normalmente
Quando o "gostar ou não gostar" toma conta do trabalho
Um dos motivos que fazem as relações no trabalho serem tão desgastantes é que a conversa sobre o trabalho acaba sequestrada pelo papo de "quem é querido e quem não é".
O que deveria ser avaliado é:
- Se a pessoa avisa o que precisa ser avisado
- Se ela confere as coisas
- Se cumpre os prazos
- Se mantém a qualidade
- Se faz o seu papel
- Se desgasta os outros sem necessidade
- Se consegue colaborar com quem está ao redor no trabalho
Só que, em alguns lugares, a avaliação vai escorregando para coisas como:
- Fulano passa uma boa impressão
- Fulano é bem simpático
- Fulano fala demais
- Fulano é querido por todos
- Fulano é meio seco
- Fulano não entra na turma
- Fulano é antipatizado
Isso é perigoso.
O que se deve olhar no trabalho não é o afeto de uma paixão ou de uma amizade, e sim a confiança profissional.
O trabalho não é amizade, nem família, nem namoro
O trabalho não é uma amizade.
Também não é uma família.
Muito menos um namoro.
Mas é, sim, feito de seres humanos.
Por isso não dá para ser completamente frio e mecânico.
O mínimo de consideração, educação, respeito, comunicação e conferência é necessário.
Mas o que o trabalho precisa não é
Goste de mim Seja meu amigo Agrade meu humor Caia nas minhas graças Vamos todos nos apoiar como uma família
O que ele precisa é
De uma relação em que dê para trabalhar normalmente
Não precisa gostar.
Mesmo que não goste, se der para fazer a comunicação, a conferência e a colaboração de que o trabalho precisa, o mínimo está garantido.
É melhor um trabalho sem gente desagradável do que um com amigos
"Prefiro um trabalho sem uma única pessoa desagradável a um trabalho em que eu tenha um bom amigo."
Essa sensação é bem realista.
Ter um melhor amigo no trabalho é um ponto a favor.
Mas, às vezes, uma única pessoa realmente desagradável pesa mais do que isso.
Por exemplo:
- Quem espalha o mau humor por aí
- Quem se acha superior e esfrega isso na sua cara
- Quem te ignora
- Quem sempre começa dizendo não
- Quem muda o tratamento conforme gosta ou não de você
- Quem transforma um erro em ataque pessoal
- Quem joga a responsabilidade nos outros
- Quem tenta dominar o clima do ambiente
Basta uma pessoa assim para o custo mental do trabalho inteiro subir.
Você pensa nela antes mesmo de sair de casa.
Fica de guarda antes de falar com ela.
As conferências atrasam.
Depois do expediente, você fica remoendo.
Até no fim de semana ela continua na sua cabeça.
Isso não é só "ficar pensando demais".
Uma única pessoa desagradável está destruindo o baixo desgaste de todo o ambiente de trabalho.
Com a maioria das pessoas, a indiferença basta
Não é preciso ficar amigo de todo mundo no trabalho.
Para a maioria das pessoas, isto já é o bastante:
- Normal
- Indiferente
- Contato só por assuntos de trabalho
- Só cumprimentos e os avisos necessários
- Estando ou não, não faz grande diferença
Pode parecer frio, mas no trabalho isso é bem tranquilo.
Pessoas indiferentes não te atacam.
Não impõem o humor delas a você.
Não se metem onde não são chamadas.
Não te balançam de um lado para o outro conforme gostam ou não de você.
Em muitos casos, conseguir se comunicar sobre o trabalho já é suficiente.
O que o trabalho precisa não é agradar a todos, e sim que uns não causem aos outros um desgaste mental desnecessário.
Com outro setor ou com um colega, às vezes dá para manter distância
Mesmo que haja alguém desagradável, se for de outro setor, muitas vezes fica mais fácil manter distância.
Limitar-se ao que é necessário.
Usar e-mail ou chat.
Encontrar menos vezes.
Colocar alguém no meio.
Deixar só o mínimo de pontos de contato profissionais.
Se dá para criar distância assim, física e no trabalho, a vida fica bem mais leve.
Mesmo com um colega, se vocês quase não trabalham juntos, dá para ignorar até certo ponto.
Não precisa gostar nem virar amigo.
Basta lidar só no que for necessário.
Se o chefe é a pessoa desagradável, o desgaste é ainda maior
O problema é quando a pessoa desagradável é o chefe.
O chefe costuma influenciar:
- A avaliação de desempenho
- As instruções
- As prioridades
- O fluxo de informações
- Quão fácil é pedir ajuda
- A carga de trabalho
- A sua alocação
- A chance de um pedido de transferência ser aceito
- A segurança psicológica
Com outro setor, dá para manter distância.
Com um colega, dá para reduzir ao mínimo.
Mas com o chefe é difícil cortar a comunicação por completo.
Você precisa confirmar as coisas com ele.
Precisa prestar contas.
É avaliado por ele.
Recebe ordens dele.
Ele controla a sua carga de trabalho.
Por isso, quando o chefe é a pessoa desagradável, não se trata mais de "tem alguém de quem eu não gosto".
Como ele segura a sua avaliação, o seu trabalho e a sua segurança psicológica, vira uma relação da qual é estruturalmente difícil escapar.
Isso não é só questão de incompatibilidade; está mais para uma situação em que alguém tem o seu destino nas mãos.
Corrija o que é culpa sua, mas não carregue os problemas dos outros nem do ambiente
Quando você está exausto no trabalho, às vezes parece que tudo é culpa sua.
Será que eu me expliquei mal? Será que estou exagerando? Será que me comunico mal? Será que eu deveria me esforçar mais para ser querido? Será que eu deveria aguentar mais?
Claro, se há algo que é culpa sua, deve refletir e corrigir.
Não fez os relatos, avisos e consultas necessários (o que no Japão chamam de "horenso": informar, comunicar e pedir orientação ao superior).
Conferiu pouco.
Falou de um jeito grosseiro.
Não cumpriu o que prometeu.
Se tem algo assim, é só corrigir.
Mas não transforme em responsabilidade sua os problemas da outra pessoa ou do ambiente.
A outra pessoa espalha o mau humor.
O chefe avalia conforme gosta ou não.
Você pede ajuda e ele não ouve.
As instruções são vagas.
A carga de trabalho é excessiva.
Você informa e ele nem olha.
Ele transforma erros em ataques pessoais.
Se você converte tudo isso em "é falta de esforço meu", seus nervos vão continuar sendo consumidos.
O importante é separar:
O que eu preciso corrigir O problema da outra pessoa O problema do chefe ou da gestão O problema da organização ou do ambiente
Separe: a empresa inteira está morta ou só o chefe é um macaco?
Esta parte é bem importante.
Quando o trabalho pesa, é fácil sentir logo que "a empresa inteira é um lixo".
Às vezes a empresa inteira realmente está morta estruturalmente.
- Todos os setores jogam a culpa nos outros
- O RH também não funciona
- O canal de atendimento também não funciona
- Jornadas longas são a regra
- O assédio é ignorado
- Mesmo mudando de setor, a cultura é a mesma
- O sistema de avaliação também está quebrado
- Toda a gestão está quebrada do mesmo jeito
Nesse caso, pensar em mudar de emprego é o mais realista.
Mas, às vezes, o problema não é a empresa toda, e sim algo concentrado em um chefe específico.
Aí uma transferência pode melhorar a situação.
Em outros setores há gente decente.
Com outro chefe, você conseguiria trabalhar normalmente.
Os sistemas da empresa pelo menos existem.
Ainda sobram lugares a quem recorrer.
Nesses casos, vale considerar uma transferência, uma mudança de função ou um canal de consulta, em vez de partir direto para o pedido de demissão.
Mesmo que a empresa tenha furos, às vezes dá para se proteger localmente
Mesmo que a empresa tenha furos estruturais, isso não significa que a única saída seja sair na hora.
Por exemplo, se:
- Alguém acima te escuta
- Você pode criar regras de funcionamento no seu escopo
- Dá para traçar limites pelo menos ao seu redor
- Há pessoas que se movem quando você explica no papel ou em documento
- Dá para criar regras mínimas dentro do seu setor
- Você pode ajustar o seu jeito de trabalhar
- Existe margem para transferência ou mudança de função
então você tem a opção de montar mecanismos de proteção locais.
Por exemplo:
- Deixar as confirmações registradas por e-mail
- Deixar claro quem toma a decisão
- Combinar o que fazer se não houver resposta
- Definir o seu escopo de responsabilidade no papel
- Transformar os pontos de discussão em documento antes das reuniões
- Padronizar os pedidos de trabalho em modelos
- Deixar uma nota de confirmação para evitar que mudem a história depois
- Deixar escrito o que você assume e o que não assume
Com pequenos mecanismos assim, às vezes dá para reduzir o custo mental pelo menos ao seu redor.
Ou seja, mesmo que a empresa não seja perfeita, se você consegue projetar limites no espaço em que atua, às vezes dá para aguentar sem trocar de emprego.
Se o chefe é um macaco, faça registros e leve por escrito
Mesmo que o seu chefe seja um macaco, se a empresa como um todo não está totalmente morta, dá para fazer as coisas andarem com registros e documentos.
Se você procurar ajuda só com emoção, a conversa tende a parar em:
Não é só incompatibilidade? Não é o jeito como você está encarando? Não dá para se esforçar um pouco mais? O que exatamente está te incomodando?
Por isso, organize os fatos e o impacto no trabalho.
Por exemplo:
Data e hora:
Local:
O que foi dito ou instruído:
Como respondi:
Impacto no trabalho:
Se voltou a acontecer:
O que quero conversar:
O que gostaria que fosse feito:
Mantenha um registro assim.
Depois, pode usar IA se quiser, e organize tudo em documento ou no papel.
- Linha do tempo
- Fatos
- Impacto no trabalho
- O que eu posso melhorar
- Problemas do outro lado ou do ambiente
- O que gostaria que fosse feito
- Pedido de transferência
- Obstáculos no trabalho
- Propostas para evitar que aconteça de novo
Com tudo organizado até esse ponto, fica bem mais fácil de ser compreendido por quem está disposto a ouvir.
Um superior sensato pode agir se os fatos e os problemas estiverem bem organizados.
Então, em vez de só aguentar, aja.
Faça o registro.
Leve por escrito.
Explique.
Peça orientação.
Se for preciso, peça transferência.
Se mesmo assim não adiantar, pense em mudar de emprego.
Essa ordem é a realista.
Quando estiver esgotado, mude para registro, consulta e funcionamento mínimo
Quando perceber que o problema está na outra pessoa ou no ambiente, é mais seguro passar a lidar com calma do que continuar queimando de emoção.
Eis o que fazer.
1. Faça um registro
Anote data e hora, local, o que foi dito, instruções, impacto no trabalho e como você respondeu.
Guarde como registro de trabalho, não como desabafo.
2. Converse com alguém que te escute
Um chefe de confiança, alguém de outro setor, o RH, a saúde ocupacional, um canal de atendimento, um serviço externo de orientação etc.
Não diga "eu não suporto essa pessoa"; diga "está havendo este impacto no trabalho".
3. Trabalhe com calma e o mínimo de atrito
Comunique só o necessário.
Se conversar vira briga, passe para o texto.
Não cuide do humor dele.
Faça só a sua parte.
4. Tenha uma rota de saída, como transferência ou troca de emprego
Se o próprio ambiente está no vermelho, considere transferência ou troca de emprego.
Construa a rota de saída antes que seus nervos cedam.
Isso não é "perder".
É uma medida realista para proteger os seus nervos.
Levar gostos e desgostos para o trabalho é tratar a comunidade do trabalho como propriedade pessoal
O mais difícil no trabalho é quando o tratamento e a avaliação mudam conforme os gostos e desgostos.
- Ser mole com quem gosta
- Ser duro com quem não gosta
- Perdoar quem puxa papo
- Dar nota baixa a quem é calado
- Passar informação a quem caiu nas graças
- Tratar com frieza quem não agrada
- Controlar as pessoas ao redor com mau humor
Isso não é trabalho; é tratar a comunidade do trabalho como propriedade pessoal.
O trabalho não é lugar para controlar os outros por gosto ou desgosto.
A informação, a conferência, a decisão e a colaboração de que o trabalho precisa devem ser separadas dos gostos e desgostos.
O que o trabalho precisa não é "amizade", e sim "inofensividade"
O que o trabalho precisa não é que todos sejam próximos como amigos.
O que ele precisa é de inofensividade.
Por inofensividade, quero dizer:
- Não atacar
- Não espalhar mau humor
- Não mudar o tratamento conforme gosto ou desgosto
- Não reter as informações necessárias
- Não esmagar os pedidos de ajuda
- Não fazer ataques pessoais
- Não transformar um erro em humilhação pública
- Conseguir se comunicar normalmente sobre o trabalho
Só isso já deixa o trabalho bem mais fácil.
Melhor um trabalho com muita gente inofensiva do que um com muita gente simpática.
Melhor pouco desgaste do que muita amizade.
Acho que é isso que muita gente realmente quer de um trabalho.
Cortar uma relação ruim não é fugir
Cortar uma relação ruim, tomar distância e reduzir o contato não é fugir.
É ajustar o ambiente.
Se há uma única comida estragada num quarto, o quarto inteiro fica com cheiro ruim.
É mais rápido tirar o que está podre do que colocar mais aromatizador.
No trabalho é igual.
Às vezes funciona mais reduzir o contato com quem desgasta seus nervos do que aumentar o número de pessoas legais.
Antes de tentar se dar bem, reduza o atrito.
Antes de mudar o seu jeito de encarar as coisas, tome distância.
É bem racional.
Resumo
O trabalho não é lugar de brincar de melhores amigos.
É uma comunidade em que as pessoas colaboram para trabalhar, gerar valor e receber o salário.
Por isso, o que se precisa não é
- Ser querido por todos
- Virar amigo de todo mundo
- Ser o centro das conversas
- Ficar sempre agradando o humor dos outros
O que se precisa é
- Conseguir trabalhar normalmente
- Conseguir fazer a comunicação necessária
- Não desgastar os outros sem necessidade
- Não distorcer o trabalho com gostos e desgostos
- Conseguir trabalhar com pouco atrito
Com outro setor ou com colegas, às vezes basta manter distância.
Mas quando o chefe é a pessoa desagradável, ele segura a sua avaliação, as instruções, as confirmações e a carga de trabalho, então deixa de ser uma simples questão de incompatibilidade.
Nesse caso, em vez de se esforçar para ser querido, é preciso projetar uma rota de saída: registro, pedido de transferência, funcionamento mínimo e preparação para trocar de emprego.
Ainda assim, é preciso separar: a empresa inteira está completamente morta, o problema é esse chefe em particular, ou dá para criar limites no seu próprio escopo?
Se a empresa inteira está morta estruturalmente, troque de emprego.
Se o problema é o chefe, transferência ou ajuste de função.
Se a empresa tem furos, mas alguém acima te escuta e você consegue criar mecanismos no seu escopo, defesa local.
Corrija o que é culpa sua.
Mas não carregue os problemas dos outros nem do ambiente.
O que o trabalho precisa não é amizade, e sim inofensividade.
Não afeto, e sim pouco atrito.
Só isso já muda bastante o quanto é fácil trabalhar.
