Aviso: este artigo contém spoilers dos dez episódios de VIVANT exibidos em 2023, incluindo o final.
A fuga em meio aos excrementos no primeiro episódio tem um objetivo bem concreto: escapar do faro dos cães policiais. Para mim, a cena também apresenta uma regra da série: mesmo alguém muito competente nem sempre consegue sobreviver com elegância. Essa é a minha leitura da encenação, não uma intenção explicada dessa forma pela equipe de produção.
Deserto, explosões, gravações no exterior e um elenco de estrelas. A imagem promete uma superprodução cheia de gente imponente. E o que os protagonistas escolhem fazer? Se esconder onde estão os excrementos.
Todo mundo é extraordinário. Só que ninguém tem garantia de continuar limpinho. Acho esse contraste uma das coisas mais absurdamente divertidas de VIVANT.
O que eles estavam fazendo naquela cena?
No primeiro episódio, Nogi e seus acompanhantes se escondem em uma latrina para escapar da polícia de Balka e dos cães que os perseguem. A resenha do episódio publicada pelo WEB The Television também comenta essa parte da fuga.
Drum ajuda de outra maneira, providenciando um carro e dando apoio à saída do grupo. Dizer que a fuga reúne pessoas muito capazes não significa que Drum também tenha entrado nos excrementos.
O importante é que a tensão continua ali. Se fosse apenas mostrar uma coisa nojenta para arrancar risadas, talvez a cena não ficasse tanto na memória. Eles estão sendo perseguidos e precisam escolher aquela saída, por mais repugnante que seja. A vontade de vê-los escapar vem junto com outro pensamento: por favor, qualquer jeito menos esse.
Aqui, do lado de fora da tela, dá para rir. Mas, se perguntassem se eu queria participar daquilo, a resposta seria um não absoluto.
Tenho a impressão de que essa distância faz a urgência da fuga conviver com uma graça muito esquisita. Claro que não é uma cena para ser interpretada como orientação de fuga segura na vida real.
Dá vontade de chamar de «merda de alto orçamento»
Só as paisagens e a presença do elenco já fazem o primeiro episódio de VIVANT parecer o começo de algo enorme. Seria natural aproveitar essa expectativa e passar um tempo mostrando apenas o lado mais impressionante de tudo.
Mas a série logo coloca suor, aflição e sujeira no mesmo enquadramento.
E isso é ótimo.
Quando dá vontade de dizer «merda de alto orçamento», não é porque eu conheça a planilha de custos. É porque a imagem de superprodução aparece, sem nenhum constrangimento, ao lado de uma fuga sem glamour algum.
Ser competente não garante uma saída elegante. Nem um terno com cara de caro obriga a história a preservar a dignidade de quem o veste.
A vida precisa ser salva. A roupa e a pose ficam para depois.
Quando o primeiro episódio já estabelece essa ordem, dá para imaginar que os elementos mais vistosos da trama não vão servir só de enfeite.
Descobrir quem é Nogi muda o sentido da competência
Na primeira vez, Nogi parece um funcionário perdido de uma empresa de comércio exterior, envolvido no problema de uma transferência errada. O resumo da TBS também explica como ele é confundido com o responsável por uma explosão em Balka e tenta escapar com Nozaki e Kaoru.
Depois, descobrimos sua verdadeira identidade: um agente de inteligência da Beppan, infiltrado para seguir os passos da Tent.
Voltar ao primeiro episódio sabendo disso acrescenta uma pergunta ao impulso de «alguém precisa ajudar esse homem»: «o que ele estava tentando conseguir?». Não é preciso concluir que toda aflição ou falha era fingimento. Ter uma missão de infiltração não é o mesmo que controlar todos os riscos que aparecem no caminho.
O que me interessa não é ver uma pessoa poderosa que nunca erra, mas alguém que parece continuar procurando a próxima saída mesmo quando está encurralado.
A competência não está em nunca se sujar. Está, nessa leitura, em seguir adiante mesmo que seja preciso se sujar. A mesma situação constrangedora ganha outro sentido depois que conhecemos sua identidade.
Com Nozaki e Drum, a fuga não vira um espetáculo só de Nogi
Essa sequência não existe apenas para exibir as habilidades de Nogi.
Nozaki passa confiança porque continua pensando em soluções e coordenando as pessoas mesmo sob perseguição. Drum faz a situação avançar com providências e ações, sem depender de muitas palavras. Ao lado da cara de apuro de Nogi, outras formas de competência estão trabalhando. É divertido acompanhar isso.
Ao rever a série, a relação entre Nozaki e Nogi também deixa de caber tão facilmente em «quem salva» e «quem é salvo». Dá vontade de pensar até onde vai a confiança e onde começa a desconfiança entre os dois.
Mas não dá para afirmar que Nozaki «já tinha sacado tudo com 99% de certeza desde o início e só fingia não saber». Não temos como verificar esse número nem tudo o que ele pensa. Ler aquelas conversas, em que ninguém entrega tudo de imediato, como uma forma de sondar o outro preserva a ambiguidade da relação.
Se houvesse uma única pessoa extraordinária e todas as outras só recebessem ajuda, seria fácil entender a função de cada um. Aqui há várias pessoas extraordinárias, e ainda assim elas precisam recorrer a um esconderijo repugnante. Essa é a força estranha do primeiro episódio.
«Todo mundo é um monstro» não quer dizer que todos tenham o mesmo talento
Uso «monstro» como um exagero sobre a capacidade e a presença desses personagens na história. Não como diagnóstico nem como definição da personalidade deles.
Nogi tem um contraste enorme entre a aparência de funcionário comum e a identidade que acaba revelada. Nozaki impressiona pelo julgamento e pela força com que conduz a situação. Drum inspira confiança porque faz o que precisa ser feito.
Ao avançar pela série, também vemos Kurosu, colega de Nogi na Beppan; Beki, com seu peso como pai e como figura central da organização; e Nokor, envolvido na operação da Tent. Cada um tem forças e conflitos próprios. Acho mais interessante ver pessoas com habilidades diferentes se confrontarem do que montar um ranking de quem é mais forte.
A presença de F também dificulta dividir Nogi simplesmente em uma «personalidade visível fraca» e uma «personalidade oculta forte». Isso não permite afirmar que, sem F, ele teria feito exatamente as mesmas coisas.
Exploro essa relação em um artigo em japonês sobre o lado inquietante de Nogi e F. Aqui, o ponto é que a história dessas pessoas não começa como uma aventura heroica impecável.
Uma produção grande, mas sem confirmação de cem milhões de ienes por episódio
Quando falamos desse contraste, a escala da produção também desperta curiosidade.
Segundo o relato de projeto da WAYO, responsável pela coordenação das gravações na Mongólia, o trabalho no país durou cerca de dois meses e meio e incluiu muitos animais, entre eles 3000 cabras. São informações sobre as filmagens na Mongólia, não sobre a duração total da produção nem sobre a quantidade de animais na cena dos excrementos.
Já o suposto orçamento de cem milhões de ienes por episódio não pode ser tratado como confirmado. Na cobertura da apresentação de programação da TBS feita pelo MANTANWEB, a emissora respondeu à pergunta dizendo que não poderia revelar detalhes da produção, sem confirmar o valor. Também não seria correto dizer que a cifra foi desmentida. Ela simplesmente não é um orçamento verificado.
Mesmo sem conhecer o total exato, há informações concretas que mostram a dimensão das gravações no exterior. E uma série desse tamanho não passa o primeiro episódio preocupada apenas em manter os protagonistas bonitos na foto.
Promete imagens grandiosas e entrega uma fuga imunda. Para mim, há muita coragem nessa escolha.
A sujeira também dá peso ao espetáculo
Dentro da trama, a fuga coberta de merda no primeiro episódio serve para despistar os perseguidores. Mas a impressão que fica vai além disso.
Ser muito competente não garante uma opção limpa. Ter alguém confiável por perto não apaga o medo, os erros nem o desconforto do corpo.
Talvez seja por isso que, quando a história apresenta estruturas maiores como a Beppan, a Segurança Pública e a Tent, os personagens não parecem apenas peças de um tabuleiro. Já vimos aqueles corpos suando, passando aperto e se movendo apesar de situações desagradáveis.
Todo mundo é um monstro. E a fuga não tem nada de limpinha.
Você esperava uma história de espionagem cheia de estilo. A primeira coisa que ela faz é deixar a dignidade dos protagonistas no meio dos excrementos. Acho que essa falta completa de cerimônia torna até o espetáculo mais exagerado de VIVANT estranhamente inesquecível.
- TBS: resumo de VIVANT, versão de 2023: a fuga de Nogi e seus acompanhantes e a identidade revelada mais adiante.
- WEB The Television: resenha do primeiro episódio: fonte secundária sobre a cena da latrina e o apoio de Drum à fuga.
- WAYO: coordenação das filmagens na Mongólia: relato da empresa sobre a duração e a escala das gravações.
- MANTANWEB: apresentação de programação da TBS, 31 de agosto de 2023: a resposta da emissora, que não confirmou o valor de orçamento mencionado na pergunta.
