Como parar de absorver a pressão do chefe: organize as coisas, mas não deixe a responsabilidade ficar confusa

O que mais desgasta no trabalho não é simplesmente ter muita coisa para fazer.

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O essencial deste artigo

O que mais desgasta no trabalho não é simplesmente ter muita coisa para fazer.

O que realmente acaba com você é não ter poder de decisão e, mesmo assim, ficar com a responsabilidade de repassar o recado, de apagar o incêndio e de limpar a bagunça depois.

Um chefe ou um colega mais antigo pressiona e diz: "Faz assim". Só que ele mesmo não vai explicar para o outro setor. Quem repassa é você. O outro setor reclama. E aí vira: "Você explicou mal".

Quando isso se repete, é fácil pensar: "Será que eu falo errado?" ou "Será que eu sou fraco?". Mas, olhando como estrutura, a história é bem diferente.

O problema vem antes da forma de falar: quem decide, quem toca a operação, quem dá as explicações e quem repassa o recado estão nos lugares errados.

Neste artigo, vamos ver por que quem é movido na base da pressão passa a ser visto como alguém "barato de manobrar", por que os colegas que te escutam não conseguem resolver o problema de raiz e como virar alguém que organiza as coisas sem absorver a responsabilidade dos outros.


1. Qual era a estrutura por trás disso

O roteiro típico desse tipo de acidente é assim.

Quem pressiona toma a decisão
↓
Manda você "falar com eles" ou "ligar para eles"
↓
Você repassa para o outro setor
↓
O outro setor levanta preocupações sobre a operação
↓
Em vez de "minha instrução foi ruim", quem pressiona diz "você explicou mal"
↓
Você vira quem leva a culpa

Isso não é um simples "erro de comunicação".

É uma estrutura em que a responsabilidade cai em cima do mensageiro, como se a culpa fosse do pombo-correio.

Quem decidiu é outra pessoa. Quem vai operar também é outra pessoa. Mas quem ficou no meio acaba, sabe-se lá por quê, carregando todo o atrito e toda a culpa.

Nessa situação, o difícil seria não se desgastar.


2. Por que dá tanta raiva

O motivo é simples.

Porque você pensa: "Então fala você."

Se a pessoa pressiona dizendo "faz assim", o certo seria ela mesma explicar para o outro setor. Se o outro setor reclamar, o certo seria ela responder por isso.

Mas, na prática, ela joga a pressão para você e não aguenta a reclamação.

Mesmo que você avise antes:

Se a gente mandar isso do jeito que está, provavelmente vai dar problema com XX.

A resposta é:

Eu mandei você levantar isso? Fala logo e pronto. Liga de uma vez.

E, quando a reclamação chega, como era de se esperar, vem:

Você explicou mal.

É uma estrutura que recusa a previsão de risco feita com antecedência, entrega só a responsabilidade de executar e coloca depois a responsabilidade pelo resultado.


3. Cadê o gerente?

Em tese, quem deveria interromper essa estrutura é o gerente.

O que o gerente precisa deixar claro é:

  • Quem decide
  • Quem responde pela operação
  • Quem consegue o acordo com o outro setor
  • Quem explica quando há reclamação
  • Se não estão despejando só a responsabilidade no subordinado

Quando isso não funciona, quem está no meio, na linha de frente, vira o amortecedor.

Quem pressiona endurece com quem deixa. Já com gente difícil ou com quem tem mais poder do que ele, não pressiona direto.

O resultado é que quem recebeu a pressão acaba colocado entre o outro setor ou o cliente e o chefe.

Isso não é "orientação rigorosa". Está mais para escolher a quem descarregar a pressão.


4. Tem gente que escuta, mas ninguém resolve o problema de raiz

Às vezes um colega ou um chefe escuta o que você tem a dizer.

Deve ser pesado. Você está bem? Isso é difícil mesmo. Não se force demais.

Isso ajuda. É importante como lugar para desabafar.

Mas só isso não resolve o problema de raiz.

Porque o problema de raiz não é emocional, é como a responsabilidade está distribuída.

O que precisa ser definido é:

  • Quem responde pelas instruções do chefe que pressiona
  • Quem explica quando o outro setor reclama
  • Como evitar absorver a culpa que cabe ao mensageiro
  • Como corrigir o desencontro entre quem decide e quem responde

Não dá para contar que as pessoas ao redor mudem tudo isso. Então só resta mudar a sua forma de trabalhar.

As pessoas com quem você desabafa, em vez de serem vistas como quem resolve o problema de raiz, é melhor usar nestes três papéis.

1. Checar a realidade

Confirme algo assim:

Isso não é só um problema de como eu falo, né? É uma estrutura em que é fácil dar problema.

2. Servir de testemunha

Compartilhe de leve:

Recebi essa instrução, tem essas preocupações, então vou seguir por esse caminho.

3. Ser uma válvula de escape emocional

Coloque para fora a raiva, o cansaço, o "não aguento mais".

Se você esperar demais de quem te escuta, como que resolva o problema de raiz, vai se desgastar ainda mais. O mais seguro é esperar deles apenas checar a realidade, servir de testemunha e ajudar a aliviar as emoções.


5. Por que você passa a ser visto como alguém "barato de manobrar"

Do ponto de vista de quem pressiona, um histórico como este faz de você alguém barato de manobrar:

  • Se mexe assim que mandam
  • Não recusa
  • Não reclama
  • Limpa a bagunça depois
  • Absorve responsabilidades mesmo sem ser o responsável
  • Basta falar de boca que você resolve
  • Ainda assume a coordenação chata entre setores

Isso não é bem fraqueza sua; em parte, é o resultado de a outra pessoa ter aprendido seus comportamentos de defesa do passado.

Por exemplo, talvez antes fosse assim:

Você leva um sermão interminável
↓
Se rebate, só alonga
↓
Leva bronca ainda maior
↓
Aí diz "Sim…" para acabar logo
↓
Já sai se mexendo
↓
Ainda limpa a bagunça depois

No curto prazo, é uma reação que protege você.

Mas, do outro lado, o que se aprende é isto:

Pressiono
↓
A pessoa se mexe
↓
Mesmo que haja atrito, ela limpa a bagunça
↓
Da próxima vez também posso jogar para ela

Ou seja, a sua reação defensiva vira, para a outra pessoa, uma experiência de sucesso.

Para sair disso, em vez de mudar sua personalidade, é preciso mudar os sinais que a outra pessoa enxerga.


6. Só registrar não faz o custo subir o bastante para a outra pessoa

Do seu lado, parece que você já tomou providências.

  • Está escrevendo registros
  • Está levando para cima
  • Devolve o que é confusão
  • Avisa antes das reclamações que vão vir
  • Já não está se mexendo barato

Mesmo assim, para a outra pessoa pode continuar parecendo que "se eu empurrar, mexe".

Por quê?

Porque a definição de "custo" é diferente para ela.

Você se desgastar não é custo para ela. E você escrever registros continua sendo barato para ela, se ela não tem que responder pelas explicações.

O que de fato é custo para ela é algo assim:

  • Nada andar se ela mesma não decidir
  • Ter que explicar para o outro setor em seu próprio nome
  • A reclamação do outro lado voltar direto para ela
  • Superiores e envolvidos entrarem em cópia, deixando a instrução à vista
  • Ter que escolher ela mesma o que priorizar
  • Uma instrução vaga não passar assim, vaga

Por isso, mais do que escrever registros, o importante é devolver a decisão.


7. O padrão antigo e o padrão novo

O padrão antigo

Você leva um sermão interminável
↓
"Sim…"
↓
Já sai se mexendo
↓
Dá conflito
↓
Você limpa a bagunça
↓
Da próxima vez jogam para você de novo

Isso é muito conveniente para quem pressiona.

O padrão novo

"Entendido"
↓
"Vou repassar para eles como um pedido"
↓
"Vou verificar as preocupações e as condições para fazer"
↓
"Se houver oposição ou condições, não decido por conta própria: trago de volta"
↓
"Depois da ligação, compartilho por escrito"

Desse jeito, você está agindo. Mas não está absorvendo a responsabilidade.

Esse é o ponto importante.


8. Princípio básico: "Eu me mexo, mas não absorvo"

O princípio básico daqui para frente pode ser este.

Eu me mexo, mas não absorvo. Eu organizo, mas não decido. Eu repasso, mas não prometo. Eu registro, mas não substituo o responsável.

Dizendo de forma ainda mais curta:

Eu organizo as coisas, mas não deixo a linha de responsabilidade ficar confusa.

É isso.

O que você quer é que a outra pessoa pense:

Se eu falar com ele, ele organiza. Mas ele não deixa a linha de responsabilidade ficar borrada.

Você deixa de ser "a pessoa que faz tudo se pedir" e passa a ser "a pessoa que resolve rápido, mas não absorve responsabilidade".


9. Ao levar para outro setor, transforme "ordem" em "pedido"

Se você transporta a pressão do jeito que ela é, dá problema.

A forma ruim é esta:

O XX disse para fazer assim, então por favor façam.

Assim, você parece quem está dando a ordem. Fica mais fácil o outro setor reclamar. E, depois que a reclamação aparece, é fácil dizerem que "você explicou mal".

A forma segura é esta:

Da parte do RH, a gente gostaria de seguir na direção de XX. Só que quem vai operar de fato é o setor de vocês, então, se houver preocupações ou condições, nos avisem. Se for difícil, queremos saber até onde vocês conseguem atender.

Isso não é uma ordem, é uma consulta.

Você respeita a área de responsabilidade do outro setor e, ao mesmo tempo, apresenta o que se pede.


10. Como responder a quem pressiona

Com quem pressiona, não se estenda nas explicações. Tem gente que simplesmente não ouve previsões de risco.

A frase básica pode ser esta:

Entendido. Vou repassar para eles como um pedido do RH e verificar as preocupações e as condições para fazer. Se houver oposição ou condições, não decido por conta própria: trago de volta.

Se mandarem ligar, faça assim:

Entendido. Vou ligar. Para evitar mal-entendidos, compartilho a resposta deles por e-mail depois da ligação.

Assim, a ligação você faz. Mas o que foi dito de boca volta para o registro escrito.


11. Exemplo de registro depois da ligação

Depois da ligação, registre logo.

Sobre o assunto que você pediu, liguei para o setor de XX. A resposta deles foi a seguinte:

  • XX: dá para atender
  • YY: difícil na prática
  • Como alternativa, ZZ é possível

Pode decidir qual será o próximo passo?

O importante aqui é não transformar isso numa decisão sua.

Em vez de "eu acho que...", separe em:

  • A resposta da outra parte
  • As preocupações da outra parte
  • A alternativa
  • Quem decide o próximo passo

12. Uma frase para devolver a prioridade

Quando parecer que vão empurrar mais trabalho, pergunte:

Dá para fazer, mas agora tenho A e B: qual eu priorizo?

Ou:

Se eu fizer agora, qual dos dois, o trabalho A ou o B, eu deixo para depois?

Se você só diz "eu faço", está absorvendo. Se faz a outra pessoa escolher "o que a gente deixa de lado para fazer isso", a responsabilidade pela prioridade volta para ela.


13. Uma frase para devolver a decisão

Quando tentarem empurrar uma decisão para você, responda assim:

Se eu prometer por conta própria, depois pode haver divergências, então o que precisar de decisão eu devolvo para o XX confirmar.

Para o outro setor, você pode dizer:

Se eu decidir por conta própria, pode ficar desalinhado depois. Vocês poderiam conversar também com o XX? Eu também compartilho com ele, mas a decisão final, por favor, que o XX confirme.

Isso não é fugir.

É só devolver a decisão para quem tem autoridade para decidir.


14. Separe a coordenação leve das decisões pesadas

Não é preciso devolver tudo para cima.

A coordenação leve você pode fazer.

  • Combinar datas
  • Organizar a redação das mensagens
  • Recolher as preocupações do outro setor
  • Organizar as condições
  • Simplificar procedimentos
  • Fazer o registro

Já as decisões pesadas, devolva.

  • O que envolve a responsabilidade de operação do outro setor
  • Promessas que provavelmente darão problema depois
  • Casos em que outro setor está reclamando
  • Mudança de prioridade
  • O que exige explicação do responsável
  • O que você não tem autoridade para decidir

Resumindo:

A coordenação leve eu faço. As decisões pesadas eu devolvo.

Isso é normalizar a linha de responsabilidade.


15. Manter distância é muito importante

O principal motivo de você ter parado de se desgastar não é só ter melhorado na sua capacidade.

O que pesou muito foi reduzir o contato.

Uma pessoa perigosa não te desgasta só com uma instrução isolada.

  • Pressiona de boca
  • Não escuta as preocupações
  • Depois transforma em problema de como você explicou
  • Decide por conta própria o que se passa na sua cabeça
  • Não apresenta critérios de decisão
  • Mas coloca a responsabilidade em cima de você

Ao ter contato com alguém assim, a sua cabeça vai acumulando tarefas pendentes.

Por isso, a política básica pode ser esta:

Não me aproximo. Quando vier algo, converto com calma. Devolvo as decisões. Deixo registro. Não carrego comigo.

Manter distância não é evitar alguém só por antipatia.

É uma defesa prática:

  • Fechar o canal de entrada com maior taxa de acidentes
  • Reduzir a transferência de culpa que vem da pressão verbal
  • Reduzir o material para ficar remoendo
  • Enfraquecer o aprendizado da outra pessoa de que "se eu empurrar, mexe"

16. Não é "fugir", é "normalizar o escopo da responsabilidade"

Às vezes você devolve assuntos complicados para quem decide ou para o responsável.

Você mesmo pode sentir que isso é "fugir". Mas, estruturalmente, isso não é fugir.

É normalizar o escopo da responsabilidade.

O perigoso, na verdade, é aceitar tudo só porque você é competente.

  • A insatisfação do outro setor
  • As instruções malfeitas de quem pressiona
  • A responsabilidade pela operação
  • As correções de última hora
  • A responsabilidade por como foi repassado

Se você absorver tudo isso, vira o "quebra-galho" do escritório. E a responsabilidade só aparece quando algo dá errado.

Por isso, basta assim:

O que eu posso decidir, eu organizo. O que eu não posso assumir como responsável, devolvo a quem decide. A responsabilidade de operação do outro setor fica com o outro setor.


17. O que significa "eu também evito o chefe que pressiona"

Quem pressiona costuma ser evitado pelas pessoas ao redor.

  • Ninguém atende o telefone
  • As respostas demoram
  • Preferem resolver por e-mail
  • "Lá vem aquele de novo"
  • Evitam lidar diretamente

Às vezes você mesmo faz isso com essa pessoa.

Mas não é por ter mau caráter.

É porque, no contato direto, aumentam o atrito, as mudanças de última hora e a transferência de culpa mais do que a organização das informações, e por isso você reduz o custo do contato.

Com quem você não confia, é uma reação defensiva natural.

Só que, se você evitar totalmente, corre o risco de ser tachado de "demora para responder" ou de não cumprir o "hōrensō" (o costume japonês de informar, avisar e consultar o chefe o tempo todo).

Por isso, em vez de

resposta imediata baseada em confiança,

faça

contato mínimo baseado em registro.

No trabalho em si, não fuja. Mas o que foi dito de boca, a transferência de culpa e as instruções vagas voltam para o registro escrito.


18. O estilo de "organizar as coisas, mas não deixar a responsabilidade confusa"

A forma final de hoje é esta.

Eu organizo as coisas. Mas não decido demais. Não prometo demais. Não deixo a linha de responsabilidade confusa. O que foi dito de boca volta para o registro escrito.

Isso é diferente de mover as pessoas na base da pressão.

O estilo de quem pressiona é assim:

Pressiona sem deixar nada claro. Se a pessoa se mexer, deu certo. Se houver conflito, é problema de como foi explicado.

O estilo de quem organiza é assim:

Separa pedido, preocupações, condições, quem decide e escopo de responsabilidade. Deixa visíveis os pontos em que provavelmente haverá atrito. Se precisar de decisão, devolve.

A diferença é grande.


19. Notas de pesquisa: áreas próximas a este assunto

Isto não é só uma questão de personalidade individual; está perto de áreas de pesquisa como psicologia organizacional, assédio moral no trabalho, segurança psicológica e aprendizagem organizacional.

Assédio moral e assédio no trabalho

Na pesquisa sobre assédio moral no trabalho, são tratadas como características importantes a repetição, a duração, a escalada, o desequilíbrio de poder e a dificuldade de se defender.

O que importa aqui não é só uma frase dura isolada, mas o fato de a outra pessoa ir sendo colocada numa posição em que fica difícil se defender.

Supervisão abusiva (abusive supervision)

Supervisão abusiva (abusive supervision) é uma área de pesquisa que estuda comportamentos hostis contínuos de um superior e o tratamento injusto.

Comportamentos como insultos, transferência de culpa, atitudes hostis, trazer à tona erros do passado e minar a credibilidade são apontados como prejudiciais à satisfação no trabalho, ao estresse, à intenção de pedir demissão e aos comportamentos de resistência dos subordinados.

Segurança psicológica

Segurança psicológica é o estado em que levantar dúvidas, preocupações, erros ou opiniões contrárias não representa um risco interpessoal excessivo.

Neste caso, se não há segurança psicológica, é fácil acontecer isto:

Se eu reclamo, alonga Se eu falo da minha preocupação, levo bronca Então digo "Sim…" e resolvo

Ou seja, a baixa segurança psicológica acelera a transformação em alguém "barato de manobrar".

Comportamento de cidadania organizacional e fadiga de cidadania (citizenship fatigue)

Ajudar além das próprias funções pode ser benéfico para a organização. Mas, se isso é exigido como pressão ou continua sem recompensa, leva ao esgotamento.

Quando a "pessoa competente" segue assumindo coordenação extra, limpeza de bagunça e absorção de responsabilidade, os buracos da organização passam a ser tapados com a energia dessa pessoa.

Aprendizagem de ciclo simples e de ciclo duplo

A aprendizagem de ciclo simples é corrigir só a superfície, sem mudar as premissas. A aprendizagem de ciclo duplo é rever as premissas, os objetivos e os critérios de decisão de fundo.

Quando o método deixa de funcionar, quem pressiona tende a pensar:

O outro é fraco Os jovens de hoje Estão com a cabeça cheia de IA e de internet Eu cheguei até aqui assim Então vou apertar mais

Isso é não rever as premissas. Ou seja, não chegou à aprendizagem de ciclo duplo.


20. Não atribua só à "fraqueza" o motivo de você ter desabado

Se no passado sua saúde piorou, você foi sinalizado num exame de saúde mental ou ganhou peso, é bem provável que não tenha sido fraqueza, e sim o seu corpo emitindo sinais de perigo.

Se você fica muito tempo exposto a pressão fora da sua área de responsabilidade, mudanças de última hora e transferência de culpa, é normal se desgastar.

Naquela época, talvez a sua estratégia de sobrevivência fosse:

  • Se eu reclamo, alonga
  • É mais rápido já sair me mexendo
  • Se eu absorvo, o clima se acalma
  • Não tenho outra opção a não ser limpar a bagunça

Mas, se você continuar assim, a outra pessoa aprende que "esse aí se mexe se eu empurrar".

Por isso, o que você precisa fazer agora não é se culpar.

É parar de tapar os buracos.


21. Por que agora você não se desgasta

O motivo de você não se desgastar agora não é que sua mente tenha virado aço de repente.

É que você mudou a estrutura.

  • Não transporta do jeito que está a pressão do chefe que pressiona
  • Transforma em pedido, preocupações e confirmação de condições
  • O que precisa de decisão, devolve ao chefe ou ao outro setor
  • Não carrega você mesmo
  • Reduz os acidentes de palavra
  • Deixa registro
  • Não vai se meter por conta própria
  • Reduz o contato

Com isso, seu cérebro consegue concluir:

Isso não é um assunto que vai consumir a minha vida.

Antes, cada vez que recebia pressão, era assim:

Preciso fazer isso passar E se reclamarem? Mas já dá para ver que vão reclamar A outra pessoa não escuta Se der errado, a culpa é minha

Agora, você consegue pensar assim:

Isso é decisão do outro setor Isso é decisão do chefe que pressiona Isso não é responsabilidade minha O que é complicado eu levo para cima Eu vou só até organizar as condições

Por isso não se desgasta.

Isso é recuperação, é aprendizado e é um redesenho da linha de responsabilidade.


22. Coletânea de modelos para o dia a dia

Quando você sofre pressão

Entendido. Vou repassar para eles como um pedido do RH e verificar as preocupações e as condições para fazer. Se houver oposição ou condições, não decido por conta própria: trago de volta.

Quando mandam você ligar

Entendido. Vou ligar. Para evitar mal-entendidos, compartilho a resposta deles por e-mail depois da ligação.

Quando for consultar outro setor

Da parte do RH, a gente gostaria de seguir na direção de XX. Só que quem vai operar de fato é o setor de vocês, então, se houver preocupações ou condições, nos avisem. Se for difícil, queremos saber até onde vocês conseguem atender.

Quando o outro setor se opõe

Sobre o assunto que você pediu, consultei o setor de XX. Eles levantaram as seguintes preocupações:

  • XX
  • XX

Como alternativa, disseram que ZZ é possível. Pode decidir qual será o próximo passo?

Quando devolver a prioridade

Dá para fazer, mas agora tenho A e B: qual eu priorizo?

Quando devolver a decisão

Se eu prometer por conta própria, depois pode haver divergências, então o que precisar de decisão eu devolvo para o XX confirmar.

Quando pedir que outro setor consulte quem decide

Se eu decidir por conta própria, pode ficar desalinhado depois. Vocês poderiam conversar também com o XX? Eu também compartilho com ele, mas a decisão final, por favor, que o XX confirme.

Quando confirmar o seu próprio escopo de responsabilidade

Eu organizo e confirmo, mas o que precisar de decisão devolvo ao setor responsável ou a quem decide. Para evitar mal-entendidos, vou deixar por escrito o que foi confirmado.


23. Conclusão final

A essência desse problema não é personalidade.

É um problema de linha de responsabilidade.

Quem pressiona parece, no curto prazo, conseguir mover as pessoas. Mas, na prática, muitas vezes está ensinando as pessoas a se defenderem.

  • Não atendem o telefone
  • Demoram a responder
  • Resolvem por e-mail
  • Evitam lidar diretamente
  • As consultas acabam indo para quem consegue coordenar

Esses são efeitos colaterais da pressão.

O que você precisa fazer não é mudar a outra pessoa.

Eu organizo as coisas. Mas não deixo a linha de responsabilidade confusa. Eu me mexo, mas não absorvo. Eu repasso, mas não prometo. O que foi dito de boca volta para o registro escrito. Se precisar de decisão, devolvo a quem decide. Reduzo o contato.

Está bom assim.

Você não precisa tapar com o próprio corpo o buraco deixado pela ausência de um gerente.

O seu papel vai até organizar a estrutura. Onde a responsabilidade fica, não a absorva por conta própria.

Essa é a linha prática para sair da dinâmica de quem te move na base da pressão.


Aviso antes de publicar

Este artigo parte de material sobre empresas e ambientes de trabalho, e publicar do jeito que está expressões que lembrem pessoas ou organizações reais é perigoso.

Se for publicar, recomenda-se o seguinte:

  • Trocar apelidos que só o círculo próximo entende por "chefe que pressiona" ou "gerente que pressiona"
  • Desfocar a época, o setor e o conteúdo do trabalho
  • Não citar nomes de empresas reais, de pessoas nem casos específicos
  • Dar a forma de artigo de análise estrutural, prevenção de recaída e autogestão, e não de desabafo
  • Separar da sua situação concreta de demissão, transferência ou troca de emprego

Sugestões de links internos

  • A estrutura do interrogatório de "por quê, por quê, por quê" e da transferência de culpa
  • Limites para não se desgastar num local de trabalho sem segurança psicológica
  • Coletânea de modelos de "devolver a decisão a quem decide" para não virar o quebra-galho
  • Por que quem move os outros na base da pressão acaba sendo evitado pelas pessoas ao redor
  • Como normalizar o escopo de responsabilidade no trabalho em vez de "fugir"

Palavras-chave de pesquisa e teoria

  • Assédio moral no trabalho (Workplace bullying)
  • Supervisão abusiva (Abusive supervision)
  • Segurança psicológica (Psychological safety)
  • Comportamento de cidadania organizacional (Organizational citizenship behavior)
  • Fadiga de cidadania (Citizenship fatigue)
  • Aprendizagem de ciclo simples (Single-loop learning)
  • Aprendizagem de ciclo duplo (Double-loop learning)
  • Raciocínio defensivo (Defensive reasoning)
  • Clareza de papéis (Role clarity)
  • Gestão de limites (Boundary management)
  • Difusão de responsabilidade (Responsibility diffusion)
  • Transferência de culpa (Blame shifting)

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