1. O problema começa antes do caixa
A placa mostra ¥199 em letras enormes.
A reação vem na hora:
“Barato!”
Depois aparece a letra pequena:
“por 100 g”
E começa a conta.
“Quanto pesa um cacho de Shine Muscat?” “Sei lá.” “Uns 550 g?” “199 × 5,5 dá mais ou menos ¥1.095.” “Deixa.”
Se você não compra, o prejuízo financeiro é zero.
Mas não significa que não houve custo nenhum.
A placa já capturou sua atenção, obrigou você a conferir a unidade, estimar peso, calcular o total, reduzir a expectativa e devolver o produto.
Vamos chamar essa fricção, de brincadeira, de “imposto de atenção”. Não é um termo acadêmico. É apenas uma forma de descrever o incômodo de reagir a um número baixo e depois ter de reconstruir o preço real.
2. Por que o Japão usa preço por 100 g?
O ponto principal:
o preço por 100 g não nasceu simplesmente para fazer produto caro parecer barato.
A orientação oficial de Tóquio explica o preço unitário como uma forma de mostrar, junto do preço de venda, um valor por quantidade padrão — como 100 g ou 10 ml — para facilitar comparação entre tamanhos, marcas e lojas.[1]
Tóquio aprovou e promulgou a legislação em 1975, publicou a designação em março de 1976 e iniciou a aplicação do sistema em 1º de julho de 1976.[2]
As regras atuais ainda usam 100 g como unidade padrão para carne.[3]
A Comissão de Comércio Justo do Japão também registrou que o código nacional de concorrência leal para rotulagem de carne adotava, em princípio, 100 g como base para quantidade e preço.[4]
A lógica era:
“Os pacotes têm pesos diferentes. Vamos dar ao consumidor uma régua comum.”
Não:
“Vamos dividir o preço do quilo por dez para parecer menor.”
3. O preço unitário é realmente útil
Três bandejas:
- A: 298 g por ¥1.188
- B: 412 g por ¥1.566
- C: 243 g por ¥948
Só pelo total é chato comparar.
Com:
- A: ¥399/100 g
- B: ¥380/100 g
- C: ¥390/100 g
a comparação fica instantânea.
Por isso eliminar o preço por 100 g criaria outro problema.
O preço unitário é uma régua de comparação.
O problema aparece quando essa régua fica visualmente mais importante que o valor que realmente será pago.
4. A pesquisa mostra que 100 g pode parecer mais barato
Um estudo de 2019 no Journal of Retailing and Consumer Services testou o efeito da unidade de medida em quatro experimentos.[6]
Resultado central:
Com o mesmo preço real, expressar o valor por 100 g fazia o produto parecer mais barato do que expressá-lo por kg e, em certas condições, aumentava a intenção de compra.
Exemplo:
- ¥199/100 g
- ¥1.990/kg
É o mesmo preço.
Mas 199 e 1.990 não passam a mesma impressão.
Mais importante: o efeito diminuía quando o preço real de venda era mostrado junto do preço unitário.[6]
Ou seja:
preço unitário + total real deixa menos espaço para distorção perceptiva.
5. Por que Shine Muscat pode irritar mais que carne
Na carne, muita gente já espera ver preço por 100 g.
Nas uvas, também é comum pensar em “um cacho”.
Então:
¥199
enorme,
por 100 g
pequeno,
pode ser lido por um instante como “¥199 o cacho”.
Um estudo de 2020 sobre unidades padrão em produtos frescos mostrou que a unidade que o consumidor considera normal para a categoria afeta preferência e certeza de avaliação; fornecer peso reduz esse efeito.[7]
O estudo não testou especificamente Shine Muscat. Portanto, não dá para fingir que é exatamente o mesmo caso.
Mas a ideia é relevante:
a unidade que o consumidor espera faz diferença.
E quase ninguém olha para um cacho e diz: “isso pesa 553 g”.
A ¥199/100 g:
- 450 g ≈ ¥896
- 550 g ≈ ¥1.095
- 650 g ≈ ¥1.294
Saber o preço unitário não basta se o peso ainda é desconhecido.
6. “Se o total for alto, eu não compro” ainda pode ser irritante
Você confere: ¥1.100.
Não compra.
Ótimo, a decisão final funcionou.
Mas antes disso você:
- viu ¥199
- reagiu ao número baixo
- prestou atenção no produto
- percebeu “por 100 g”
- procurou ou estimou o peso
- calculou o total
- reduziu a expectativa
- devolveu
Então o problema não é apenas conversão.
Uma placa pode falhar em fechar a venda e ainda assim ter vencido a disputa pela sua atenção.
Isso não prova intenção de enganar.
Efeito e intenção são coisas diferentes.
7. É marketing? Enganação? Ilegal?
Separe três perguntas.
A. Preço por 100 g em si
Tem função legítima e história regulatória como instrumento de comparação.[1][2][3][4]
B. O efeito de uma unidade pequena Experimentos mostram que ela pode fazer o mesmo preço parecer menor e elevar intenção de compra.[6]
C. Uma loja específica está enganando de propósito? Não dá para concluir só pela unidade.
A legislação japonesa proíbe representações de preço ou condições comerciais que façam uma oferta parecer significativamente mais vantajosa do que é e prejudiquem a escolha racional do consumidor.[5]
Mas “¥199 por 100 g” não é automaticamente ilegal.
É preciso olhar o conjunto: tamanho da fonte, posição, total, condições e ligação entre placa e produto.
Resumo:
preço unitário é legítimo; unidades menores têm efeito perceptivo real; design pode amplificar ou reduzir; intenção e legalidade são análises separadas.
8. Como seria um preço melhor
A solução não é apagar o preço unitário, mas corrigir a hierarquia.
Produto pesado:
TOTAL DESTE PACOTE: ¥1.094
550 g
¥199 por 100 g
Cada número faz um trabalho:
- total → compro ou não
- peso → quantidade
- unitário → comparação
Para frutas de peso variável:
¥199 por 100 g
Cacho típico de 500–600 g:
aprox. ¥995–¥1.194
Se for possível pesar cada unidade e mostrar peso real + total, melhor ainda.
Em linguagem de interface:
preço unitário é UI de comparação; total é UI de pagamento.
Não troque as funções.
9. Conclusão: ¥199 não é o vilão; o problema é fazer dele o protagonista
Preço por 100 g é útil.
Ele permite comparar produtos de quantidades diferentes.
Mas a pesquisa confirma que:
¥199/100 g
e
¥1.990/kg
podem parecer diferentes mesmo sendo economicamente idênticos.[6]
E mostrar o total real reduz essa diferença.
Portanto:
mantenha o preço unitário;
deixe o total real muito mais claro.
Ninguém precisa fazer a missão paralela do supermercado:
“Barato!” “Peraí, por 100 g?” “Quanto pesa um cacho?” “Por que estou fazendo multiplicação na frente da uva?” “Passou de ¥1.000.” “Deixa.”
Preço unitário foi criado para reduzir trabalho de comparação.
Se ele termina abrindo a calculadora do celular, a interface conseguiu inverter a própria finalidade.
