Um arrozal no fim da tarde ajuda muito a gente a se recuperar.
O calor do meio-dia diminui. O céu fica enorme. O vento passa. Dá para sentir o cheiro do arroz. Dá para ouvir os insetos. E tem aquela luz suave de antes do pôr do sol.
Tem muita coisa para perceber, mas quase nenhuma pressão das outras pessoas.
Isso importa mais do que parece.
Na cidade, tem barulho, propaganda, carro, gente, loja, semáforo, placa, celular e opção demais. Até caminhar exige mais da cabeça.
Já o caminho entre os arrozais é bem mais simples.
Céu.
Vento.
Arroz.
Canais de irrigação.
Insetos.
Pôr do sol.
Uma silhueta lá longe.
Já está de bom tamanho.
A cabeça se acalma sozinha.
Hoje foi assim: de manhã, trabalho e treinamento, com aquela dose de barulho humano. À tarde, um dia de folga remunerada e uma soneca. No fim do dia, uma caminhada pelos arrozais. Essa sequência funciona muito bem.
Manhã: trabalho.
Tarde: saída de cena.
Soneca: recarregar.
Fim do dia: deixar os pensamentos repetitivos escorrerem pelos arrozais.
Essa ordem é a certa.
A ruminação, aquele hábito de remoer a mesma preocupação, às vezes não para nem quando você tenta na frente da mesa.
Mas, quando você mexe o corpo, amplia a visão e sente o vento, os pensamentos ficam menos densos.
Andando, as ideias fluem.
Sentado pensando, você fica rodando no mesmo lugar.
O caminho dos arrozais também é um lugar para encerrar de vez essas ruminações.
Senhores e senhoras de meia-idade, jovens estrangeiros, gente que sai para caminhar. No fim da tarde, tem mais gente nos arrozais do que se imagina.
Cada um veio recuperar alguma coisa.
Não exige a disposição que a academia exige.
Não custa o que um café custa.
Não tem a pressão humana da cidade.
Um arrozal no fim da tarde é um espaço de recuperação gratuito que já existe no bairro.
