Não dá para ler mentes, mas até onde dá para prever o que alguém vai fazer pelo que ele faz?

Só com essas três trocas, a informação é pouca.

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Não dá para ler mentes, mas até onde dá para prever o que alguém vai fazer pelo que ele faz?
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Resumo em 5 segundos: não temos como enxergar o que se passa na cabeça dos outros. Mas existem hábitos que aparecem do lado de fora: como a pessoa responde mensagens, como ela fecha compromissos, se oferece alternativa, quanto ela deixa para a última hora. Com isso dá para atualizar um pouco a probabilidade do que ela vai fazer em seguida. É mais parecido com ler um "registro de funcionamento" do que com "ler mentes".

Resumo em 30 segundos: alguém diz "te aviso quando souber como fica minha agenda". Você pergunta "quando você vai saber?" e a resposta é "não sei". Aí você chuta: "essa pessoa vai aparecer de repente na véspera com um 'amanhã eu consigo'". Dias depois, na noite da véspera, chega a mensagem: "amanhã de manhã eu consigo, pode ser?". Por que você acertou? Na psicologia existem estudos sobre o julgamento por fatias finas (thin-slice judgment): observações bem curtas permitem prever resultados até certo ponto. Numa metanálise famosa, a relação entre observações de comportamento de menos de 5 minutos e resultados objetivos foi de r=.39 no geral. Só que isso não quer dizer 39% de acerto. Além disso, o comportamento passado serve de pista para prever o futuro em situações parecidas. A experiência só vira "faro" em ambientes onde os mesmos padrões se repetem e o resultado volta como retorno. Ou seja: o que eu li aqui não foi a personalidade nem o que a pessoa pensa de verdade, e sim o padrão de funcionamento dela, como ela decide a agenda.

1. "Te aviso quando souber" → "Quando?" → "Não sei"

Só com essas três trocas, a informação é pouca.

Não sabemos como a pessoa é, o que pensa de verdade nem como é a vida dela.

Mas uma coisa dá para ver.

É esta característica de comportamento: ela não definiu antes quando o compromisso será confirmado.

Então a previsão fica assim:

"Talvez essa pessoa não costume fixar o compromisso com alguns dias de antecedência, e sim avisar assim que descobre que está livre."

E depois, na noite da véspera, veio o "amanhã de manhã eu consigo".

Não é adivinhar o futuro.

O jeito dela de lidar com a agenda vazou direto pela própria agenda.

2. O que eu li não foi a "mente", e sim o "funcionamento"

Esta é a parte mais importante.

"O que será que ela pensa de mim?" "Será que, no fundo, ela está com raiva?" "Será que ela me detesta por dentro?"

Isso é bem difícil. Não dá para observar diretamente o que está na cabeça de alguém.

Já estas coisas aparecem do lado de fora:

  • Se responde rápido ou devagar
  • Com quantos dias de antecedência fecha os planos
  • Se oferece uma alternativa quando não pode
  • Quando atualiza a informação depois de um "não sei"
  • Que tipo de aviso dá quando algo muda

Ou seja, observar os procedimentos que a pessoa repete é muito mais realista do que tentar enxergar as emoções dela.

3. Fatias finas: mesmo poucos segundos já trazem alguma informação

Na psicologia existe a ideia de thin slices of behavior, algo como "fatias finas de comportamento".

A metanálise de Ambady e Rosenthal, de 1992, reuniu o quanto observações curtas de comportamento, de menos de 5 minutos, conseguem prever resultados objetivos posteriores.

Somando 38 tipos de resultado, o tamanho de efeito geral foi r=.39.

O mais curioso é que não se confirmou que observações de menos de 30 segundos fossem claramente piores do que as de 4 ou 5 minutos.

Mesmo com pouca informação, às vezes a gente julga melhor do que no puro acaso.

Mas, se agora você disser "então acerta 40%", o pessoal da estatística passa mal.

4. r=.39 não é "39% de acerto"

r=.39 é um coeficiente de correlação, não uma taxa de acerto.

Significa que o julgamento feito a partir de uma observação curta e o resultado real tinham uma relação de intensidade média.

Cada estudo prevê coisas diferentes: alguns usam notas contínuas, outros resultados por categoria, e as condições também variam.

Por isso,

para a pergunta "qual a porcentagem do próximo comportamento de uma pessoa que dá para acertar?"

não existe um número único que sirva para tudo.

Em algumas situações se acerta bastante; em outras, quase nada.

O que importa é o que você está tentando prever.

Dá para ler como alguém decide a agenda, mas não dá para ler, com a mesma precisão, se ele está apaixonado.

5. O modelo da lente: o que não se vê, enxerga-se por meio de pistas

O modelo da lente de Brunswik ajuda a entender tudo isso.

As características e o estado de uma pessoa em si não se enxergam.

Mas as pistas que ela deixa do lado de fora, sim.

Por exemplo, alguém que costuma decidir tudo bem em cima da hora pode apresentar comportamentos como

  • não dizer quando vai confirmar
  • não deixar um plano provisório
  • avisar de repente assim que fica livre

Nós usamos essas pistas para julgar.

A precisão depende de essas pistas estarem mesmo ligadas ao resultado e de a gente saber usá-las direito.

Não é olho clínico. É controle de qualidade das pistas.

6. O comportamento passado é matéria-prima para prever o futuro

A revisão de Ouellette e Wood, de 1998, organiza como o comportamento passado prevê o comportamento futuro.

Principalmente quando situações parecidas se repetem, o comportamento tende a virar hábito.

Quem sempre decide a agenda em cima da hora tende a fazer o mesmo em situações parecidas.

Quem sempre oferece alternativa quando não pode tem mais chance de oferecer de novo.

Claro que a vida tem exceções.

Mas, se "essa pessoa sempre faz assim" foi observado de fato várias vezes, isso serve para prever o futuro.

Um histórico repetido pesa mais do que uma impressão isolada.

7. As condições para a experiência virar "faro" são bem rigorosas

O "faro de quem tem experiência" nem sempre acerta.

Kahneman e Klein, em 2009, organizaram as condições para que exista expertise intuitiva.

As principais são duas:

  1. O ambiente ter regularidades que dá para aprender
  2. Receber retorno suficiente sobre os resultados

Se você já lidou com um monte de combinações de agenda do mesmo tipo,

e viu também o que aconteceu depois ("quem respondeu assim agiu de tal jeito", "esse tipo confirmava cedo", "esse tipo mudava na última hora"),

um padrão se forma na sua cabeça.

Já num ambiente em que você não vê os resultados, se só a confiança cresce, isso não é expertise, e sim um faro cheio de convicção.

8. Lidar com muitas mensagens vira, sozinho, dados de treino

Se você processa dezenas ou centenas de mensagens parecidas, mesmo sem montar uma tabela estatística, acaba aprendendo os padrões.

"Com esse texto, o mais comum é acontecer isso." "Quem não oferece alternativa aqui costuma aparecer de repente depois." "Com essa velocidade de resposta, hoje não vai ser decidido."

Claro que nem tudo acerta.

Mas, em um ambiente em que você vê o resultado sempre, até os erros servem para corrigir o rumo.

Em linguagem de machine learning:

o texto da resposta = a entrada

o comportamento posterior = o rótulo correto

O cérebro humano vai treinando, sem avisar, um classificador modesto.

9. O mais fácil de ler são os "comportamentos que se repetem"

Na previsão de comportamento, o que é relativamente fácil de lidar são as rotinas que a pessoa repete várias vezes.

Por exemplo:

  • Em que horário costuma responder
  • Com que rapidez fixa os planos
  • Se avisa quando vai se atrasar
  • Se oferece alternativa quando não pode
  • Se só se mexe perto do prazo
  • Com que frequência muda o combinado
  • Se se antecipa a dar explicações quando elas são necessárias

Essas coisas tendem a se repetir em condições parecidas.

Já os grandes acontecimentos que só ocorrem uma vez na vida são difíceis de aprender.

O que é fácil de prever não é "a alma da pessoa", e sim "a rotina dela".

10. O difícil de ler: a "verdade interior", as "motivações" e as "circunstâncias de uma vez só"

O perigo começa aqui.

Demora a responder.

Então não gosta de mim.

Não define a agenda.

Então é desleixado.

Não oferece alternativa.

Então não tem consideração.

Isso é pular longe demais.

Os motivos de uma resposta lenta são infinitos: trabalho, saúde, família, uma notificação perdida, um simples esquecimento.

Um mesmo comportamento pode ter várias causas internas.

Identificar a emoção por trás de um comportamento é mais difícil do que prever o comportamento seguinte.

Por isso, "acho que ela vai mandar um 'amanhã eu consigo'" é relativamente seguro, mas "essa pessoa é assim" vira perigoso de repente.

11. Se você só junta os acertos, qualquer um vira profeta

Outro inimigo é o viés de confirmação.

As previsões certas dão prazer, então a gente lembra delas.

As erradas são sem graça, então a gente esquece.

Se isso continua, no boletim da sua cabeça você sempre tira o primeiro lugar.

Se você quer mesmo saber sua precisão, precisa anotar a previsão na hora e corrigir todas depois.

"Acho que ela vai avisar na semana que vem." "Acho que ela vai deixar para a véspera." "Acho que ela vai propor uma alternativa."

Deixe registrado antes e conte também os erros.

O maior inimigo do profeta é o Excel.

12. Na prática, use "probabilidade", não "afirmação"

A previsão de comportamento funciona melhor quando serve para deixar seus planos mais seguros, não para rotular as pessoas.

Por exemplo,

em vez de "essa pessoa com certeza avisa em cima da hora",

pense: "é provável que ela avise em cima da hora, então não vou depender só dela e vou ter outra opção."

Em vez de "essa pessoa não é confiável",

pense: "ela costuma confirmar tarde, então vou deixar o prazo claro."

Não cole rótulos de personalidade; mude o procedimento.

Assim, mesmo errando, o prejuízo é pequeno.

O objetivo de prever não é desmascarar as pessoas.

É não deixar a agenda explodir.

13. Conclusão: a mente não se lê, mas os hábitos vazam

O interior das pessoas é uma caixa-preta.

Não dá para ler por completo "o que ela está pensando de verdade".

Mas até uma caixa-preta tem entradas e saídas.

Responde. Decide. Atrasa. Oferece alternativa. Avisa em cima da hora.

Se isso se repete, vira matéria-prima para prever o próximo comportamento.

As pesquisas mostram que, mesmo a partir de comportamentos curtos, a previsão não é zero. O comportamento passado traz informação sobre o futuro em situações parecidas. E, para a experiência virar de fato "faro", são necessários regularidade e retorno.

Por isso, o jeito mais preciso de dizer é este:

Não se lê a mente. Também não se enxerga a personalidade. Mas os hábitos de funcionamento vazam bastante.

O que eu acertei desta vez não foi o futuro.

Foi o jeito como aquela pessoa decide o futuro.

Referências

Livros para se aprofundar nesta pesquisa

  • Good Habits, Bad Habits (edição em inglês)

    Wendy Wood / Farrar, Straus and Giroux / 2019

    Wendy Wood, coautora do estudo sobre hábito e intenção citado acima, explica para o público geral como os hábitos se formam e como mudá-los, com base em sua própria pesquisa.

  • Thinking, Fast and Slow (edição em inglês)

    Daniel Kahneman / Farrar, Straus and Giroux / 2013

    Daniel Kahneman, coautor do artigo sobre expertise intuitiva citado acima, explica o pensamento rápido e intuitivo e o lento e deliberado, e quando cada um funciona ou falha.

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