Nem as grandes empresas conseguem identificar quem tira foto com o BeReal no trabalho e acaba expondo informação interna.
Então qual é o sentido de fazer três ou quatro rodadas de entrevista?
É uma dúvida bem afiada.
Mas, se a gente encerra o assunto em "o RH não percebeu", acaba errando um pouco o alvo.
Porque um vazamento do tipo BeReal acontece num ponto diferente daquilo que a entrevista consegue avaliar, seja competência ou personalidade.
O que dá para enxergar numa entrevista é, no máximo, isto:
- Se a pessoa consegue manter uma conversa
- Se sabe explicar por que quer a vaga
- Se o currículo não tem contradições grandes
- Se não deixa o entrevistador desconfortável
- Se age com bom senso naquele momento
Só que, no instante em que chega a notificação do BeReal no meio do expediente, será que a pessoa para e pensa:
"Posso tirar foto aqui e agora?"
"Aparece o nome de algum cliente no fundo?"
"O quadro branco ou a tela do computador entrou na foto?"
"Será que 'é só para os meus amigos' é mesmo um bom critério?"
Isso, só com entrevista, quase não dá para saber.
Ou seja, mais do que uma falha do processo seletivo, isso é um problema de gestão da informação interna na era das redes sociais por impulso.
O BeReal foi feito para você fotografar já
O BeReal funciona assim: todo dia, num horário aleatório, chega uma notificação e você tem 2 minutos para tirar e compartilhar uma foto. Ainda por cima, ele usa a câmera frontal e a traseira ao mesmo tempo, registrando você e o que está ao seu redor.
É isso que o torna mais complicado do que uma postagem comum.
No Instagram ou no X (o antigo Twitter), você escolhe a foto, pensa no texto e tem um tempinho para conferir antes de publicar.
Já o BeReal, como o nome diz, tem valor justamente por registrar "este exato momento".
Ou seja, o aplicativo pressiona o usuário assim:
Tire agora.
Mostre onde você está.
Sem filtro, mostre o real.
Esse desenho é divertido no dia a dia.
Amigos conseguem compartilhar naturalmente o que estão fazendo naquele instante.
Mas no trabalho a combinação é péssima.
Porque num local de trabalho existe coisa demais que não pode aparecer:
- Nomes de clientes
- Nomes de funcionários
- Crachás de identificação
- Crachás com nome
- Quadros brancos
- Telas de computador
- Documentos
- Mapas de assentos
- Material de reuniões
- Informações de produtos
- Informações de parceiros comerciais
- O interior de fábricas, laboratórios e escritórios
Mesmo que apareça só como fundo de uma cena do dia a dia, para a empresa isso pode ser um vazamento de informação.
Nesse ponto, o BeReal deixa de ser só uma rede social para jovens e vira uma interface de impulso que bate de frente com as regras de gestão da informação no trabalho.
"Se treinar, evita" não é bem assim
Então dá para evitar com um treinamento na admissão?
Treinamento é necessário, claro.
"Dentro da empresa não se tiram fotos nem se gravam vídeos."
"Não se publica informação da empresa em redes sociais."
"Perfil fechado também não vale."
"Seja BeReal, Instagram ou LINE (o app de mensagens mais usado no Japão), não importa o aplicativo: não pode."
"Se aparecer quadro branco, tela, documento, rosto, crachá ou nome de cliente, é infração."
É preciso ensinar até esse nível, com exemplos concretos.
Mesmo assim, só treinar não impede tudo.
Porque entre as pessoas sempre existe "aquele que não estava ouvindo".
Se você explica para 100 pessoas e 99 entendem, mas 1 não escutou, o acidente acontece do mesmo jeito.
E o vazamento se concretiza mesmo que 99 façam tudo certo: basta a postagem de uma.
É o que podemos chamar de o problema da bomba de 1 em 100.
A empresa dizer "nós explicamos na admissão" não basta.
O que realmente se precisa é de uma defesa em várias camadas:
- Explicar as regras
- Aplicar um teste de compreensão
- Colher assinatura num termo de compromisso
- Fazer a pessoa decidir com base em exemplos concretos
- Sinalizar as áreas onde é proibido fotografar
- Definir áreas onde não se pode entrar com celular
- Não deixar nomes de clientes nem informação confidencial à vista
- Definir o canal de comunicação em caso de incidente
- Deixar claros os critérios de punição em caso de infração
Treinamento é necessário, mas só ele não basta.
Não dá para barrar isso com uma segurança de "treinamento de fachada", só para constar.
Mesmo "havendo regras internas", acontece de novo
Em casos como esse, de bancos e grandes empresas, é difícil imaginar que não houvesse nenhuma regra interna.
É muito provável que já existissem normas como proibição de fotografar dentro da empresa, dever de sigilo, gestão de dados pessoais e proibição de postar em redes sociais.
E mesmo assim o incidente acontece.
Por quê?
Não porque faltem regras, mas porque a regra perde para o impulso.
Chega a notificação do BeReal.
Os amigos ao redor também estão postando.
Vem a sensação de "preciso tirar agora".
A pessoa tira achando que só os amigos vão ver.
Não confere o fundo.
Posta.
Alguém salva e espalha.
A informação da empresa vai parar no mundo.
Esse caminho não tem nada a ver com a retirada maliciosa de informações.
A pessoa não pensou "vou vazar informação da empresa".
Ela só fez como uma extensão das postagens do dia a dia.
Por isso é tão complicado.
Não é um espião mal-intencionado, mas um colaborador descuidado, fisgado por uma notificação.
Mesmo na abordagem de ameaças internas tratada por órgãos como a CISA (agência de cibersegurança dos Estados Unidos), o risco interno não envolve só má-fé: inclui a possibilidade de alguém com acesso e conhecimento interno causar dano à organização. Quem está dentro do local de trabalho consegue levar para fora o que enxerga, mesmo sem querer fazer mal.
Ou seja, o problema não é "contratamos uma pessoa de mau caráter".
É que qualquer um, só por estar dentro da empresa, pode ser uma porta de saída para a informação.
Até onde dá para restringir o celular pessoal?
O difícil aqui é a fronteira com o celular pessoal.
A empresa não pode mandar na vida privada dos funcionários.
É complicado controlar por completo quais aplicativos a pessoa instala no próprio celular ou o que ela posta no dia de folga.
Por isso, proibir "usar BeReal" em toda a vida privada não é realista.
Mas, em situações que envolvem o espaço da empresa, o horário de trabalho, informação confidencial, dados de clientes ou de funcionários, a empresa pode restringir com firmeza.
A fronteira deveria ser traçada assim:
A empresa não controla a posse do celular pessoal nem o uso na vida privada.
Mas dentro da empresa, durante o expediente, na casa do cliente, em veículos da empresa, em áreas confidenciais e em qualquer lugar onde possa aparecer informação da empresa, fica proibido usar a câmera, gravar, transmitir, postar ou compartilhar com dispositivos pessoais.
A proibição é pela ação, não pelo nome do aplicativo.
Uma regra fraca é esta:
Proibido BeReal.
Com isso surgem as brechas.
"E no Instagram pode?"
"E se eu só mandar para um amigo pelo LINE?"
"E com perfil fechado?"
"Então desde que não seja TikTok, tudo bem?"
É o que começa a acontecer.
Uma regra forte é esta:
Em locais onde possa aparecer informação da empresa, é proibido fotografar, gravar, transmitir, postar ou compartilhar com dispositivos pessoais.
O que se deve proibir não é um aplicativo específico, mas o ato de levar a informação da empresa para fora.
O hábito dos jovens nas redes não se segura só com regra
Falando sem rodeios, é muito difícil conter o hábito e a impulsividade dos jovens nas redes sociais só com regras no papel.
Não é para menosprezar os jovens.
Pelo contrário: pensar que "está no regulamento, então eles vão entender" é ingenuidade com uma geração que tem a rede social entranhada no dia a dia.
Para quem desde a época de estudante usa o BeReal para compartilhar a rotina com os amigos, tirar a foto quando chega a notificação pode ser algo completamente natural.
Na cabeça da pessoa, talvez não seja
divulgar informação da empresa
e sim
mostrar para os amigos como estou agora, como sempre
Aí está o descompasso.
Para a empresa, o escritório é um espaço confidencial.
Para a pessoa, é o lugar onde ela está agora.
Para os amigos, é uma postagem do dia a dia.
Na internet, é vazamento de informação.
Essas quatro percepções colidem dentro da mesma foto.
Por isso a empresa não deve achar que "o bom senso resolve".
É preciso traduzir tudo isso não em bom senso, mas em regras de conduta concretas.
Em vez de impedir a repetição, projetar para limitar o dano quando ela acontecer
É difícil impedir por completo que isso se repita.
Porque as condições coincidem demais:
- O celular pessoal está sempre no bolso
- As câmeras estão cada vez melhores
- As redes sociais incentivam a postagem imediata
- Os jovens estão acostumados a compartilhar o cotidiano
- No trabalho há muita informação que não pode aparecer
- Mesmo em postagem só para amigos, dá para fazer captura de tela, salvar e espalhar
- O erro de uma só pessoa pode virar um problema de credibilidade para a empresa inteira
Por isso, o realista não é "garantir que nunca mais aconteça", e sim garantir que, se acontecer, o dano não cresça.
Por exemplo, com um desenho como este.
1. Escrever expressamente a proibição de abrir a câmera na empresa
Não basta "proibido fotografar na empresa"; é preciso escrever também:
- Não abrir o aplicativo da câmera
- Não tirar a foto mesmo que chegue a notificação do BeReal
- Não fotografar no intervalo em locais onde apareça informação da empresa
- Se quiser tirar foto, ir até um espaço de descanso designado ou sair da empresa
2. Fazer exercícios de caso: "isso pode ser postado?"
Se só houver explicação, quem não está ouvindo passa batido.
Por exemplo, no treinamento se propõem perguntas como estas:
- Pode postar uma foto em que aparece uma tela de computador pequena ao fundo?
- Se o texto do quadro branco for ilegível, pode?
- Se o crachá estiver virado ao contrário, pode?
- Se o perfil for fechado, pode?
- Se eu só mandar para um amigo pelo LINE, pode?
- No intervalo, pode fotografar dentro do escritório?
- E se o nome de um cliente aparecer só em parte?
Se a pessoa não decidir com exemplos concretos, a regra não entra no corpo.
3. Não deixar à vista as informações que não podem ser vistas
Escrever nome de cliente no quadro branco.
Deixar documentos em cima da mesa.
Sair da mesa com a tela do computador aberta.
Deixar o crachá ou a identificação aparecer.
Se isso é rotina, quando acontecer um incidente de foto, o dano será maior.
Não basta dizer "não fotografe"; é preciso construir um ambiente em que, mesmo se fotografarem, o dano seja pequeno.
4. Separar áreas onde não se pode entrar com celular
Proibir celular em toda a empresa de forma uniforme pode não ser realista.
Mas em locais com informação de clientes, financeira, pessoal, de pesquisa ou de produção, há espaço para restringir a entrada de celulares pessoais.
Em vez de proibir tudo, divide-se por áreas:
- Área confidencial: proibido entrar com celular pessoal
- Escritório: proibido abrir a câmera
- Sala de descanso: uso permitido desde que não apareça informação da empresa
- Ambientes externos e fora da empresa: vida privada, em princípio livre
Faz-se uma escala por níveis.
5. Criar um canal de comunicação para quando houver incidente
Num vazamento, importa não só o fato em si, mas também a resposta depois que ele é descoberto.
Se, quando a pessoa pensa "ih, deu ruim", não existe um canal para avisar na hora, a exclusão atrasa e a propagação avança.
É preciso definir:
- Para quem se comunica
- Em quantos minutos se comunica
- O procedimento para apagar a postagem
- Como registrar capturas de tela, URL e horário da postagem
- Como decidir se clientes e envolvidos serão avisados
- O registro de prevenção de reincidência
Ficar quieto "com medo de levar bronca" é o que há de mais perigoso.
Mais que quatro entrevistas, vale instalar as regras no primeiro dia
Fazer três ou quatro entrevistas talvez reduza alguns desencontros.
Mas identificar por completo um vazamento do tipo BeReal numa entrevista é impossível.
Se na entrevista você pergunta "Você tiraria BeReal durante o trabalho?", o normal é a pessoa responder "não".
E ela pode mesmo estar achando, naquele momento, que não vai tirar.
Só que, depois de entrar, chega a notificação.
Os amigos estão postando.
Ela pensa "preciso tirar agora".
Tira sem olhar direito ao redor.
E acontece o incidente.
Por isso, em vez de tentar detectar os descuidados na entrevista, é mais rápido dizer isto no primeiro dia:
Não tirem BeReal dentro da empresa.
Não só o BeReal: não abram a câmera em locais onde possa aparecer informação da empresa.
Perfil fechado não vale, só para amigos não vale, LINE também não vale.
Se aparecer ao fundo nome de cliente, nome de funcionário, documento, tela, quadro branco ou crachá, é vazamento de informação.
Se chegar a notificação, ignorem. Se quiserem tirar a foto, vão para um lugar onde não apareça informação da empresa.
É preciso falar até esse ponto.
E, depois, fazer a pessoa resolver os casos, coletar a assinatura e estabelecer as restrições por área.
É muito mais realista do que tentar enxergar o caráter de alguém numa entrevista.
Conclusão: não deixe uma rede social por impulso decidir sobre conformidade
O vazamento pelo BeReal não é simplesmente um "os jovens de hoje não prestam".
Claro que a responsabilidade de quem fotografa informação interna e posta é grande.
Tirar foto num local onde possam aparecer dados confidenciais ou pessoais é uma conduta muito perigosa.
Mas, do lado da empresa, também não basta dizer "está no regulamento" ou "explicamos na admissão".
As pessoas não escutam.
Esquecem.
Agem pelo hábito.
Se deixam levar pela notificação.
Acham que, se for só para amigos, tudo bem.
Esquecem de conferir o fundo.
Por isso, o projeto deve ser pensado assim:
O impulso humano não é contido só por regras no papel.
Por isso, projeta-se tudo junto: treinamento, compromisso assinado, exemplos concretos, restrições do ambiente, o que fica visível e como agir em caso de incidente.
Este é um caso não resolvido, e é bem provável que se repita.
É justamente por isso que o que se precisa não é "criticar o RH por não ter percebido na entrevista".
O que se precisa é de um desenho de ambiente de trabalho para a era das redes sociais por impulso.
Se for para dar nomes, seriam estes:
O problema de não deixar a rede por impulso decidir.
O problema da bomba de 1 em 100.
A segurança de treinamento de fachada.
Vazamento por BeReal: caso sem solução.
Não confie na boa vontade das pessoas.
Ponha a cerca, a placa e a chave.
E, partindo do princípio de que algo ainda vai escapar, reduza o alcance do dano.
