Às vezes, vendo uma história de fantasia, aparece um item que faz você pensar: "Peraí, isso pode ficar largado no meio do caminho?"
Parece só uma flor qualquer.
Cresce quietinha no meio da floresta.
Até uma criança consegue pegar.
Não tem zelador nem segurança.
Mas, se você usa, consegue fazer mágica por um tempo, voar ou até tocar a raiz do mundo.
Pensando com calma, é bem perigoso.
Na vida real, seria como encontrar combustível nuclear ou a chave de administrador de uma IA militar numa trilha de montanha.
E quem pegou nem faz ideia do perigo que aquilo representa.
Essa estrutura é muito forte para a fantasia.
Porque passa a sensação de que, bem ao lado do dia a dia, existe um objeto estranho capaz de mudar o mundo.
O medo de uma flor de beira de estrada virar o "buff" definitivo
Uma flor mágica assim não é só um item útil dentro da história.
Ela cumpre papéis como estes:
- Dá a pessoas comuns permissões temporárias de magia
- Permite pular o treinamento que um poder desses normalmente exigiria
- Vira um recurso perigoso que laboratórios e poderosos cobiçam
- É a porta que leva o protagonista para o extraordinário
- É um mecanismo que mostra ao leitor as regras do próprio mundo
Em resumo, não é um simples "buff" (um reforço temporário, como nos games).
Falando em termos de jogo, não é uma poção que aumenta um pouquinho o ataque.
Está mais para uma chave de licença proibida que concede, por um tempo, permissão de administrador.
Uma pessoa comum que usa passa a agir como um mago de repente.
Um mago que usa tem o poder ainda mais amplificado.
Um laboratório que usa pode converter isso em magia artificial, armas, experimentos com quimeras e técnicas de dominação.
Ou seja, a flor só tem aparência fofa; na prática, é um recurso bem perigoso.
Mesmo "uma vez a cada 7 anos", a segurança é uma bagunça
Flores assim costumam ser explicadas como algo que "só floresce a cada tantos anos" ou "só se consegue em condições especiais".
Raras, de fato, elas são.
Mas mesmo assim, às vezes o controle é desleixado demais.
Se fosse mesmo um recurso perigoso, o esperado seria:
- Transformar a área em zona lacrada
- Erguer uma barreira mágica
- Exigir autorização para a coleta
- Colocar vigias
- Pôr avisos contra o uso indevido
- Impedir que crianças e animais cheguem perto
- Montar um plano de emergência para quem usar
Só que, nos mundos de fantasia, ela costuma estar ali, florescendo normalmente na floresta.
E um gato ou outro animal leva o protagonista até lá, e ele acaba pegando.
Nesse ponto, o controle de materiais perigosos do mundo mágico fica bem duvidoso.
Na vida real, um "Perigo: não toque" não seria nem de longe suficiente.
Seria preciso um aviso do tipo "No instante em que você usar, sua vida e sua visão de mundo vão mudar."
Justamente por ser uma flor natural, o laboratório a quer
O interessante é que um item definitivo assim é retratado como algo natural, e não artificial.
Não é uma arma feita por humanos.
Nem um aparelho inventado por um laboratório.
Ela só está ali, florescendo na floresta.
É uma estrutura bem poderosa.
Porque faz a natureza parecer superior aos humanos e aos magos.
O laboratório tenta controlar a flor.
Tenta reproduzi-la artificialmente.
Tenta ampliar seu poder.
Tenta transformá-la em arma.
Tenta transplantá-la para outros seres vivos.
Mas, nesse momento, algo começa a ficar sinistro.
Arrancar da natureza o que convém aos humanos, dominar e tornar "eficiente".
Quando essa imagem aparece, o lado do laboratório passa a parecer suspeito de uma vez.
No começo, parece "um ladrão roubou a flor", mas no meio da história começa a parecer outra coisa:
O vilão de verdade é quem levou a flor?
Ou quem fazia pesquisas perigosas com ela?
Essa virada é uma das graças das obras de fantasia.
O momento em que uma "escola de magia" começa a parecer um laboratório
A expressão "escola de magia" carrega um sonho.
Voar de vassoura.
Tem aula.
Tem professor.
Tem aluno.
Tem refeitório.
Praticar magia.
Mas, quando você vê de perto, não tem aluno.
Só um prédio enorme.
Só os adultos estão estranhamente empolgados.
Tem máscara e um clima de ritual.
Dá a impressão de experimentos com animais e quimeras.
Ninguém confere identidade nem confirma com os pais ou responsáveis.
A essa altura, já não é uma escola.
Parece mais
um laboratório disfarçado de escola de magia.
E, assim que o protagonista parece ter um poder mágico fora do comum, ele começa a ser elogiado do nada.
"Você é especial."
"Que talento incrível."
"Você é exatamente quem devia estar aqui."
"Queremos que você seja o líder."
Isso não é educação; está mais para aliciamento.
Numa empresa de verdade, seria como ouvir no primeiro dia: "Você tem talento, então vai liderar este projeto que já está pegando fogo."
Sem conferir quem você é.
Sem explicação.
Sem treinamento.
Sem jeito de sair.
Mas a responsabilidade cai nas suas costas do mesmo jeito.
Isso já é um zoológico do mundo mágico com buracos na cerca.
Ser tratado como "o escolhido" quase sempre é perigoso
Nas histórias, o protagonista às vezes é tratado como "o escolhido".
Claro que isso, por si só, é um clássico e é divertido.
O leitor também se empolga.
Mas, olhando com um pouco de calma, é perigoso.
Principalmente quando elementos como estes se juntam, a desconfiança só aumenta:
- Elogiam logo que se conhecem
- Deixam você entrar no centro sem checar quem é
- Nenhum responsável ou terceiro confirma nada
- Não explicam a finalidade do lugar
- Não há alunos nem funcionários comuns por perto
- Não se vê como sair
- Você é levado para perto de experimentos ou missões perigosas
- Ficam repetindo que "você tem talento"
Isso lembra mais aliciamento de seita ou uma guilda abusiva do que uma escola.
O protagonista é mesmo tão incrível?
Ou os outros só o enxergam como um material conveniente de usar?
Se você assistir com essa dúvida na cabeça, a fantasia fica bem mais interessante.
A flor é a "chave de API" do mundo mágico
Se fôssemos comparar esse tipo de flor com algo moderno, ela seria a chave de API (API key) do mundo mágico.
Só de segurar, você acessa áreas onde normalmente não entraria.
Mesmo quem não tem permissão é deixado passar pelo sistema.
E ainda tem prazo de validade.
Não se sabe quanto resta nem como funciona.
Se acabar, talvez você não consiga voltar.
Isso é bem assustador.
O protagonista acha que "conseguiu um poder incrível".
Mas, na verdade, é como ter feito login num servidor externo sem nenhuma garantia de volta.
Enquanto tem a flor, ele voa.
Enquanto tem a flor, usa magia.
Enquanto tem a flor, entra na escola.
Então, o que acontece quando o poder da flor acabar?
Existe caminho de volta?
A vassoura ainda vai funcionar?
Os outros vão ajudar?
Eles ao menos pretendem deixar você voltar?
Essa sensação de "se a bateria acabar, já era" é o que cria a tensão da história.
O item definitivo da beira da estrada não é um mundo mal planejado, é uma porta de entrada
Claro que, se você for implicar, dá para dizer que "o controle é frouxo demais".
Por que uma flor perigosa está na floresta?
Por que uma criança consegue pegar?
Por que o laboratório não protege melhor?
Por que ninguém confirma com os responsáveis?
Tem muita coisa para criticar.
Mas esse desleixo é também a porta de entrada da história.
No meio do cotidiano, há algo que normalmente não dá para tocar.
O protagonista pega.
E, naquele instante, o outro lado do mundo se abre.
Essa estrutura é muito forte.
Não é "ele parte em aventura porque foi escolhido",
e sim "ele é arrastado porque pegou".
Esse acaso é um começo de aventura muito satisfatório.
E o melhor é que não é uma espada nem uma joia, é uma flor.
Algo pequeno que cresce na natureza abala o laboratório e o mundo mágico inteiro.
Com a aparência fofa intacta, ela está cravada na raiz do mundo.
Resumo: a flor mágica é um recurso perigoso com carinha de fofura
A flor mágica não é só um adereço de fantasia.
Ela é:
- Um item que transforma alguém em bruxa por um tempo
- Um buff de poder mágico
- Um recurso de pesquisa proibido
- O material definitivo vindo da natureza
- Um objeto perigoso que o laboratório cobiça
- A porta que leva o protagonista ao extraordinário
- Um mecanismo que expõe a ética do mundo
Por isso, só de estar na floresta, já é interessante.
O item definitivo está jogado na beira da estrada.
Mas, no instante em que você o pega, começa a enxergar o desleixo e o lado sombrio do mundo.
A escola de magia é mesmo uma escola?
O laboratório é mesmo o lado da justiça?
Quem roubou é mesmo o vilão?
Os adultos que querem controlar o poder da natureza estão mesmo no seu juízo perfeito?
Se você assistir pensando nisso, a fantasia ganha profundidade de uma vez.
E a conclusão é esta:
Deixar um menor de idade pegar o combustível nuclear do mundo mágico, que brota solto na floresta, já mostra que a gestão de materiais perigosos desse mundo é uma bagunça total.
